foto: presente p 1 bruxa russa ~ com amor,
28.12.09

Para o meu amigo Fao:

antes dos complexos agroindustriais
havia a figura do índio; agora extinta, execrada.
e assim se vão as bacias, se vão as nascentes
presidiárias de cidades sitiadas.
e dá-nos agua poluida
que o banho, quente, nos espera na banheira;
]borda de mármore com porcelana.

&

Um presente da irmã, a artista completa, Irene Beteille:

Foi por causa do homem
Do diabo verde em papel picado
Foram os tantos olhos cegos
De emoções de móvel
Na ante-sala
A céu fechado
Foi por causa do tempo
Ausência abaixo
E das gotas que pingavam lentas
Do céu molhado
Talvez tenha sido o vento
Carregando as almas
Para detrás dos olhos sujos e pretos
Daqueles mares
- E chora, chora, chora...
Que talvez teu pranto
Traga de volta ao mundo
O que a ti devora
Tua alma de borboleta viva
Cuja cor de amarelo aflito
Reacenda os dias em flor
E na sujeira do mundo
Porcos não mais te devorem
Pérola linda de gente
De céu colorido de amor.

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

27.9.09

"~
´Isso é outra história´
Mas essa história nunca é contada. Ninguém parte dela.
~
Falemos a partir das coisas."
J.L.Godard


*.* Lendas do Ballet Clássico *.*


Segunda - Feira.

Uma mulher ensaia ao piano o início de diversos adagios de mozart enquanto um homem de idade aparenta plenitude em atentos ouvidos.

A mãe quis saber; naquele dia, levou o filho:
- O senhor professor pode me dizer o que é isso?

Nas pequeninas costas do menino estavam os cinco dedos da mão, em roxo-degradê bem estampado.
- Agora não, e se você não sair daqui imediatamente vai ficar com uma marca igualzinha...

Terça - Feira.

O namorado de Ana P. desiste, em definitivo, de namorar uma bailarina, mesmo que seu professor seja de orientação sexual etérea.

Quarta - Feira.

Ligia é aconselhada a depilar de forma a favorecer esteticamente as sombras do ecartê.

Quinta - Feira.

Felipe é flagrado com cerveja e condenado a ser mundano e barrigudo. Conformado, passa a se esconder do mestre, todos os dias, às seis da tarde, atrás do balcão do bar, ao reconhecer
[de vista e de longe
os primeiros sinais de seu andar...

Sexta - Feira 13!!!

O homem de idade leva uma vareta para melhorar os ensinamentos da coluna do pequeno Joaquim; mais uma vez flagra e arrasta Ana Paula pelo braço do carro [no e do] namorado [matando aula]; *proibe* Ligia que use meias escuras para solucionar o problema das penugens e finje que não vê Felipe pela quinta vez sentado no bar, tomando cerveja, esta mesma semana...
]ad infinitum

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

12.11.06

"Nós nos equilibramos, por isso passamos do silêncio para as palavras. Oscilamos entre os dois, porque esse é o movimento da vida. No dia-a-dia, alguém passa para uma vida que chamamos de superior. O pensamento da vida. Mas esta vida pressupõe que alguém tenha matado o dia-a-dia, fundamental para a vida."
J. L. Godard

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

20.7.06

Esse texto eu descobri mais tarde que é para alguns rostos. Rostos que fizeram parte de um momento que eu chamo de brilho. Rostos que estão calados agora, mas que eu levo para sempre comigo.
Ao sorriso de Lucile, aos cigarros de Carlos, às saias de Sílvia Aparício, aos abraços de Álvaro Pedreira, às loucuras de David Muri, à ingenuidade bonita de Pan Ai, às piadas de Beatriz, à coincidência de Ramalho. Jean e seus livros, Jean e seus adesivos, Jean e sua música experimental, Jean e seus filmes trashes, Jean projecionista, Jean e Grizet. Jean e seu casaco azul, seu jeito que não se esquece. Seu carro sempre aberto, seu discurso anarquista, aquele monte de coisas no macarrão. Seu jeito de falar, de comer, de olhar e de não olhar. Seu jeito de não olhar. Sílvia descendo a Rabassa, Síliva e seus aspargos. Síliva nas ruas, nos cafés, Sílvia andando em cima do corrimão. Todos os rostos que conheci, todas as coisas. Todas as ruas, todos os cafés, os bancos de praça, o sorriso de Lucile, David, Sílvia, Álvaro, Ramalho, Jean, Carlos, Grizet. Às linhas do trem, enfim.


CARTELA: Si le ves a alguien el aliento de esse modo es como se le vieras el alma, y, claro, cuando le vez el alma a alguien te enamoras. (Juan José Millás)

Quanto nos lembramos de um momento com o tempo?

Quanto nos lembramos das pessoas? Da primeira impressão, o feio que ficou bonito e o bonito que ficou feio. Uma ou outra coisa que ouvimos, é assim como guardamos as caras... sempre caladas.

Mas é incrível como reconhecemos uma expressão. A memória embaça, as caras perdem linhas e contornos, mas existe uma coisa que não tem nome, não tem forma. E a isso eu chamo expressão. Quando eu digo que não confio em retrato é porque o momento registrado é tão irreal quanto o tempo e (se o tempo não pára) como existe o momento? O problema do retrato é que ele não é correspondido. Quem tira a foto não sai no momento.

Eu gostaria de saber onde anda aquele sorriso agora.

E você, como você gostaria de conhecer alguém?

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

11.6.06

Sempre virá. Odeio quando te enganas assim, girando entre as panelas. A vida é agora, aprende. O pó se acumula todos os dias sobre as emoções. Estende a tua pata para o Outro, delicadamente. Cata os piolhos do Outro. Deixa que catem os teus. Esmaga entre os dentes, engole. Fala-me do gosto.
O gosto é bom, eu te dizia. E não impede a asa, a seta disparada em direção a Hydrus, Eridanus. Mas primeiro prova da terra. Depois, voa. Não aprendeste com Ícaro?

Caio Fernando Abreu

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

20.5.06

"essa é a história da borboleta que se apaixonou por um soco." [michel melamed]

essa é uma história de amor contada por fragmentos, porque só assim eu pude escrever nas melhores companhias.
antes de mais nada, o início

"e quando um rapaz e uma moça dessas se encontram, seja por um momento ou por horas, tanto faz, mas por algum motivo, não importa, eles não querer se separar." [caio fernando abreu]

antes de tudo, o sentimento

"este é o menino de sal,
o menino de sal que pesa no
meu coração
em quem tanto desejei pregar
asas de amor e de anjo" [caio]

com o desejo mais comum de todas as mulheres que vêem a vida passar em um beijo

"se nós dois se empareasse, se juntim nós dois vivesse" [cordel do fogo encantado]

porque não podem ler o pensamento do padre e dos pais

"perdoai a quem nos tem ofendido"
para o godard, nós sempre acabamos perdoando. para mim, não é perdão, mas esquecimento.

como amar na pobreza, na doença...
... e até mesmo na falta de amor.
hã?

como gostar de desenhar sapatos quando eles não dizem nada além de constatar a ausência de pés.

a pia que caiu. vai ver não era para pôr os pés.

o que eu escrevo não invalida o que eu sinto. e vice-versa.

e os trechos de unna femme est unne femme
"émile e ângela: tudo vai dar errado porque eles se amam.
quer que eu fique? sim.
quer que eu vá embora? sim.
está aqui há muito tempo? não, há 27 anos.
o presente é a posse que nenhum mal te tira.
tudo foi dito, até que mudem as palavras." [godard]

nunca prometer adorar a vida inteira.

ter paixão e ter pudor. hã?

"o amor é um contato livre, que se inicia com uma faísca e pode terminar do mesmo modo." [isabel allende]

"perdoe a minha precariedade e as minhas tentativas inábeis, desajeitadas, de segurar a maçã no escuro. me queira bem." [caio]

"estendo as mãos para o além, mas os entendê-las vejo que não é aquilo que quero aquilo que desejo" [fernando pessoa]

mas newton tinha razão, a maçã madura caiu.

the end.

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

16.5.06

MULHER
Ninguém me insiste. Ninguém me insiste e isso é a maior prova de que ninguém está interessado em mim, mas passa por mim com um interesse próprio.

CARLETA 3: Le grand finale.

FADE OUT

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

10.5.06

e dos casulos saem lindas najas raivosas e com fome...

eu odeio as borboletas da barriga. odeio essas borboletas estúpidas que me descem aos ovários e me sobem à garganta mas eu não posso vê-las porque só descem até as pernas ou sobem só até a boca e do corpo não saem. são muito parecidas com serpentes venenosas - o veneno é minha úlcera que cresce a cada dia desse amor de borboletas.

como eu ia dizendo, eu odeio todas essas serpentes bonitas. como é que eu sei que elas são assim, bonitas? ora: elas vêm sempre que meu coração vê alguma coisa que eu gosto muito. muito muito muito. aí elas vêm e sacodem tudo o que eu comi mais cedo. na verdade, elas também correm quando eu penso. e, quando adejam, roubam todos os meus sentimentos.

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

27.4.06

meus olhos pecam sempre. meu corpo peca às vezes. bom é quando tudo peca ao mesmo tempo.

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

15.4.06

"Só eu sei
O gosto a cor
Que me traz"


e também

"e quase sempre eu penso em te deixar e
é só você chegar pra eu me esquecer de mim"

Tim Maia

Passo do Guanxuma, 26 de junho de 1998.

Maria Helena,
Eu nunca mais pensaria em mim enquanto eu visse a sua cara calma e doce, típica de alguém tentando realizar o impossível. Então eu quis, sei lá, abraçar você, mas você não tinha tempo para abraços. E eu desejei que abrisse uma fenda no céu, daquelas com luzes no meio das nuvens, saindo raios de todos os lados, feito um prisma, e que você então fosse sugada para, sei lá, o paraíso. Mesmo sem tempo para os abraços.
Eu estou vendo o dia clarear daqui de cima e tem uma casa que ainda está na noite. Daqui a pouco todo esse céu vai ser trocado e tudo será dia. E talvez duas pessoas tenham o triste hábito de se abraçar no bom-dia.

Um beijo, gosto de você. Não a amo, porque se pode amar um time de futebol, mas jamais rolar com ele feito gatinhos.

A.


"aqui troco de mão e começo a ordenar o caos"
Ana C.

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

5.2.06

ME BEIJA assassina quieta bonita de touca de máscara rabo com brinco perfume cecê de roupa sem roupa sapato meia em pé na mesa com raiva sem pé pudor lágrima bala argola riso bafo unha grande roída na ponta dos pés chiclete calça comprida saia bundalelê hippie segurando um poodle falando num celular rosa com pressa devagar boca aberta fechada dentada, mas de batom melado NÃO.

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

29.1.06

SINOPSE

(RESUMINDO) Uma mulher e um palhaço discutem as possibilidades de estar só e em companhia.

CARTELA 2: Suas histórias não são especiais. Nada disso é frase feita. Você é que não pode enxergar pelos olhos dos outros. Vai tentando compreender a sua vidinha, até que um dia você vai, finalmente, chegar a um olhar comum, a um lugar. Onde a vida é óbvia demais.

CARTELA 3: Elvis está vivo numa ilha pornô.

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

25.1.06

"A estas horas minha imaginação se confunde com meus desejos, e meus desejos não têm medida. Seja mais concreto."

Patty Diphusa, Almodóvar.

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

18.1.06

Mirella, bonito nome. Você me parece loura. Te quero assim. Sabe, uma garota assim não se permite o ócio total, só o bruguês. O que lê, vai ao cinema e joga buraco. Mas o que mata, não. Inova. Até onde inventamos alguém? Os tímidos, doces armadilhas. Falar? . Olhar? Corriqueiros, corriqueiros. Uma aproximação? Só se for na marra, um contra-coxa na parede, ataque epilético no chão. Você é tímida, Mirella? Mas você não parece tímida. Você parece falar até demais. Falar até quando o momento não pede palavras. Então você se encarrega de todos os silêncios, desde o cômodo ao irremediável. Mas, Mirella, quem fala demais não perde momentos? Ou você não fala demais. Você é calada demais. E pensa em cada palavra antes de ser dita. Então fica em silêncio e finge que aquilo não incomoda você. Mas coça, não? O silêncio me coça. E se você não for demais? Mas pessoas divertidas costumam ser demais, e demais me lembra exagero. Sabe, Mirella, quando estamos a conhecer alguém, podemos separar o que é inventado do que é real? Não será que a gente especula demais sobre as coisas e pessoas? Você já tentou imaginar a casa de alguém e alguma vez acertou? Não para ver se pessoa é pobre ou rica, mas para saber se quando ela escreve no computador está vestida ou pelada, ou se quando ela fala com você ao telefone está sentada no chão ou na cama, na cadeira ou no sofá? Quantas perguntas, Mirella. Como você gostaria de conhecer alguém? Eu gostaria de estar chorando no metrô e que me estendessem a mão e me levassem ao paraíso. Sabe, Mirella, eu tenho medo: eu espero demais das pessoas. Espero que elas me estendam a mão e falem do paraíso. Espero pessoas incondicionais, embora não acredite em sentimentos incondicionais e ache que as pessoas estão tão vinculadas aos sentimentos que não existem mais sem eles, nada de homens das cavernas. Desde que descobriram o riso o mundo mudou e os dinossauros, com aquela boca bicuda e dentes grandes, fugiram porque, afinal, eles não conseguiam sorrir. E eu, no fundo, acredito no acaso. Mas os vencedores, teoricamente, não acreditam no acaso. Você acha, Mirella, que as pessoas são só egoísmo? Eu também não gostava de batata doce, mas o gosto da gente muda. Mas o gosto da gente muda. A opinião da gente muda. O querer e o poder são separados por presente futuro e passado? Quantas perguntas, Mirella. Mas não se assute, são todas retóricas, as perguntas. Você pode me dizer o mínimo ou o máximo e eu sempre vou inventar você. Teoria demais, Mirella. Então não me diz nada, apenas conta. Ou não conta. Mas fica com isto aqui porque eu acho bonito. E me assusta:

"[...]Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você, ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e, se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que, no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende? Dolorido-colorido, estou repetindo devagar para que você possa compreender[...]"
Caio Fernando de Abreu

Um beijo,
André.

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

13.1.06

André. André é teórico demais. Tem nome, documento e atestado de óbito pra quando morrer. André é um homem de ação, mais ação do que sentimento. Está sempre pensando, coisa que não pára nunca. É verdade que os pensamentos de André remetem sentimentos - grandes catarses -, mas André está geralmente balançando num ônibus, tem vergonha do que podem estar pensando e por isso não chora. Nem sorri. André pensa nos pensamentos dos outros e é natural que não tenha asas, apenas aquela cara de cidadão que não expressa nada além do fato de que aquele sujeito agüenta. André namora e pensa no casamento e nos três futuros filhos; dois meninos e uma moça, pra equilibrar. André é bonito e a conquista está em tudo. Se sai de casa, leva o arpão caso apareça um contra-filé mal passado, nunca se sabe. Amanhã tem sol?
A manhã teve sol. André saiu com pressa, não pensou no arpão. André está com sono e não está pensando. André encontra conhecidos e não os cumprimenta. Afinal, André não está pensando. Eles olham André feio, torto, mas André não os vê porque não está pensando. Agora André está sentindo, acima de todas as coisas, um sentimento que começa a aparecer como SONO. André esfrega o olho. Boceja. Está descabelado porque acordou dez pra hora de sair. Metrô. Nem viu o sol. Nem pensou no sol. O sono já se foi. André agora sente um desejo qualquer, é vaidoso. Chega ao trabalho, não cumprimenta ninguém e lembra do desejo qualquer. Percebe que não ama a namorada e agarra a secretária, fazem sexo como há três meses ele não fazia. Depois, André afrouxa a gravata e pede três pizzas de café da manhã. André ainda não está pensando. André se apaixona derradeiramente pela secretária, puxando a mulher pelo braço até saírem desajeitados dali. Mas André não é patrão e pede demissão; André quer sentir. Está cansado de pensar, cansado de dormir e dormir e não fazer sentido e não importar o sol e não importar o som; André quer ser levado dali. E levar. E levar a secretária e ser levado pelas pizzas e não pensar em filhos, ou se quiser que consuma seu desejo ali. Que fure a barriga da mulher, que nasçam logo os três diabinhos. E, se os quiser enforcar por estarem - é normal - berrado demais, que o faça. Que André não seja teórico demais, mas que também a prática não seja estúpida demais. Que deixe florescer da gosma verde e feia, de todas as digestões, que deixe florescer uma begônia. Ou uma tarântula. Uma naja. Uma andorinha. Que a alma nunca adoeça. E que André exista.

Agora André é uma não-coisa viva. Uma coisa viva, quero dizer, mas que precisa ser digerida para chegar na coisa. Dessa digestão, então, nascem as cobras, nascem as mãos, nasce uma vida. Nasce uma vida de verdade. E tudo isso por refletir o que há de mais verdadeiro em André: a alma. E a alma é a não-coisa, livre de julgamentos, é a gosma. Você come, se farta, digere, amolda e vomita. E vomita mesmo. Verdade, amarelo, verde, azul, uma calça Lee desbotada.

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

7.1.06

"Desculpa mas se eu não tocar você agora, vou perder toda a naturalidade, não conseguirei dizer mais nada, não tenho culpa, estou apenas sentindo sem controle, não me entenda mal, não me entenda bem, é só essa vontade quase simples de estender o braço para tocar você, faz tempo demais que estamos aqui conversando, já dissemos muito, dissemos tudo o que pode ser dito entre duas pessoas que estão tentando se conhecer, tenho a sensação impressão ilusão de que nos compreendemos, agora só preciso estender o braço e com a ponta dos meus dedos, tocar você, natural que seja assim: o toque, depois da compreensão que conquistamos. Não diz nada, apenas olha para mim, sorri. Faz pouco despencou uma estrela e fizemos, ao mesmo tempo, dois pedidos. Pedi para saber tocá-lo. Você não me conta seus desejos. Sorri com os olhos, com a mesma boca que mais tarde, um dia, depois daqui, poderá me dizer: não. Há uma espécie de heroísmo então quando estendo o braço, alongo as mãos, abro os dedos e brota. Toca. Perto da minha a boca se entreabre lenta, úmida, chiclete, vinho, vermelha, os dentes se chocam, leve ruído, as línguas se misturam. Naufrago em tua boca, esqueço, mastigo tua saliva, afundo, escuridão e umidade, calor rijo do teu corpo contra a minha coxa, calor rijo do meu corpo contra a tua coxa. Amanhã não sei, não sabemos".
(Caio F.)

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

4.1.06

dois textos muito antigos que pedem bis:

"e tudo o que ele dissesse sobre a verdade e sobre o bem e sobre o belo não significava mais para a maioria das pessoas do que uma rosa para uma vaca."
(h. andersen)

cansada dessas histórias fantásticas de sapatos e sombras, bem e mal, quando um se deixa inexistir para dar lugar ao outro.
vida: que pode ser triste, mas o triste é impossível. e tudo isso só porque o oposto deixou de existir quando da felicidade nasceu a tristeza e da tristeza, a felicidade.
nada no mundo teve mais nome quando a sombra comprou sapatos vermelhos de verniz; e nunca mais parou de dançar.

béguin.
para quem conhece a vaidade das flores que são lindas e hostis e esperam o momento do desabrochar mais belo só pra dar inveja na gente então saem dos botões pequenos e coloridos um monde de asas molengas que depois murcham vexadas porque elas são muito vaidosas mesmo e morrem bem feias mas só conheceu a beleza das gardênias quem não as viu assim.

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

25.12.05

boas notícias! agora eu também escrevo na literatura jovem deficitária com duas feras (alice, ismar). duas feras. especial de quem adora natal ;)
porque família, monamour, quando se reúne não sei para o que é, mas não é para o que parece ser.

dorinha era casada com armando que se enrabichava com verinha que estava cansada disso e tocava jorge ben.

- você fica aí atrás da cortina do boxe que eu saio de fininho.
- tudo isso, culpa sua.
- a gente precisava conversar.
- e adiantou?
- não adiantou porque você é complicado e depois que fica fugindo de mim e a dorinha me adora. hoje, ela me abraçou.
- hipocrisia...
- não sou. é que não gosto de ser antipática.
barulhos no corredor. movimento giratório da maçaneta. silêncio.
- armando...
- eu vou sair daqui. pela janela.
- mas armando...
armando mergulha os braços e alterna as nádegas para passar. depois dá um grito, ouve-se um barulho lá embaixo na grama e nada mais.
- ... eu te amo.

***

lolinha que era filha de dorinha e era bonita mas sozinha então estava toda pra lá em cima de betinho, filho de verinha.

- então eu disse pro meu professor que eu tinha tirado 9,5, e não 9,0. mas ele não fez nada aí a gente foi lá e mudou a pauta. mas ninguém descobriu.
então eu tô de férias, né. eu comprei um presente pra você hoje lá no shopping. deve estar embaixo da árvore. eu...

betinho era canalha até a alma e achava que o mundo era gentalha. queria pegar a prima, uma questão de fazer a coisa errada.

- vamos ali na varanda dar uma olhada na rua.

***

tia célia, 150 kg, nem preciso dizer que ficou pra titia. na cozinha, ao lado de edmundo, que amava noberto, fazia cinco anos de gay arrependido de não ter dado antes.

- então. eu só não posso comer banana e abacate. tenho tomado muita água. mas em dia especial a gente pode tudo, não é?

[edmundo: ai, noberto, você, no, meu, lençol-de-seda]

***

o resto. avó para morrer desde que todo mundo tinha nascido, alguns pivetes tomando sorvete no quarto com um vídeo game, armando é procurado, tios e tias sentados no sofá com seus relógios de ouro (branco para mulheres, amarelo, impressão, saiu de moda), unhas & cabelos. lolinha matinha os cachos e de repente betinho veio com um bico e deu um estalinho bem na varanda [moro num país tropical abençoado por deus bonito por natureza mas que beleza], armando arrebentado lá embaixo, dorinha sem saber exatamente de onde começaria a gritar (do banheiro não; antes morto do que descoberta) e jorge ben é trocado por ney matogrosso.

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

14.11.05

te apresento a mulher mais discreta
do mundo: essa que tem de mortes, segredos.
essa que anda de salto fino para não gastar
as pontas dos pés.
essa que a gente ouve a pisada,
essa boa de gargalhada.
uma puta que não é puta porque é boa demais
e que chama toda atenção.

te apresento o homem mais indiscreto do mundo: o ladrão de galinhas. o literal ladrão de galinhas, que roubou a merilu. marilu, marilu, botava ovo pelo censura!

te apresento a galinha: louca, vendo tudo ao contrário.

e te apresento o pato; sobrou pra mim, sobrou pra mim.

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

6.11.05

"O amante seria inocente como o são os heróis de Sade. Infelizmente, seu sofrimento é normalmente aguilhoado por seu duplo, o Erro: tenho medo do outro 'mais de que de meu pai'."
(Roland Barthes, fragmentos de um discurso amoroso)

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

12.10.05

abandonar: ação derradeira em função de mudança. geralmente é seguida de alívio. ou desespero.

vida: qualquer coisa diferente de obrigação; "ah, isto é que é vida", dizem as pessoas quando estão de férias.

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

7.10.05

é legal que o amor apareça e desperte no momento certo.
nem muito antes, nem muito depois.
e não é legal que apareça antes e desperte muito depois.


ué, eu gosto de você, eu gosto de você, eu gosto de você, eu gosto.
o amor tinha chegado e assim tinha saído porque para um dos lados pareceu desimportante para o outro lado e agora era necessário repetir até mesmo o que não se vai fazer acreditar porque o lado que escuta encerou os ouvidos de todas as formas, um mecanismo de auto-proteção, e o lado que fala tardou demais para fazer uma grande descoberta. as pessoas gostam de reciprocidade, mesmo se adequando ao amor incondicional às vezes, é comum se escravizarem por amor. eu te amo porque te amo, é meu estado de alma e eu não peço nada por ele, amor é dado de graça, e eu conservo um certo ódio por isso.

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

28.9.05

* primeiramente, eu peço desculpas aos meus leitores pela demora de textos. o resto é obrigada.

eu sou motorista de ônibus, mas nunca paro pra pegar passageiro porque passageiro é problema.
outro dia, vejam só, entrou um homem. bonito, bem vestido até. chupando bala. dois minutos depois, eu quase atropelei uma dona. uma loira se jogou na frente do carro atordoada, sacudia o rosto de um lado pro outro, espantado os cabelos. o homem fez que não e escondeu a cara rapidinho.
- desce, AGORA!
mas ele não obedeceu. ela fez cara de bandido com sangue circulando nas veias, olhos esbugalhados e sobrancelhas abertas.
- ô motorista, não anda que eu tô subindo!
e espancou cada degrau com os pés. ela vestia uma saia e um sutiã de rendas. aquilo me agradou e por isso eu não andei com o carro, apesar de que aquela mulher não parecia ter amor à vida para sair da frente caso eu acelerasse. então ela ficou lá em cima, depois da roleta, com um maço de cigarros na mão e um isqueiro na outra. acendeu um cigarro, tragou e soprou bem na cara do homem. ele não pareceu confortável. ela tinha os olhos vermelhos quinem as unhas e não usava maquiagem. era uma mulher fodedora, eu pensei. a trocadora ria, acho que as mulheres são todas cúmplices umas das outras, não sei por que brigam tanto entre si. os outros passageiros estavam bufando e olhando para mim, mas enquanto houvesse uma mulher fodedora de sutiã de rendas em cima do meu ônibus eu não tinha motivos para andar.
- volta pra casa.
- vai pra casa pôr uma roupa. você está ridícula.
- pôr uma roupa é o caraleo! me explica por que você me largou.
(não explica, eu pensei)
mas ele não estava realmente disposto a explicar nada, já tinha outra mulher em alguma outra cama em qualquer outro lugar.
- não. é melhor assim. agora desce.
- foda-se! seu babaca! eu odeio tudo em você!
então ela me puxou.
- vem cá. olha, seu imbecil! qualquer homem é melhor do que você!
senti seu bafo ruim. ela me deu dois tapinhas, um em cada lado da cara. eu pensei em esbofeteá-la, mas então ela enfiou a língua áspera e morna dentro da minha boca e eu lembrei que ela trazia metade dos peitos pra fora e gostei.
o homem não demonstrou surpresa e puxou a minha mulher pelo braço até descerem, cambaleando, do carro.
eu fiquei buzinando, queria minha mulher de sutiã no meu ônibus de volta, eu a amava, mas ela havia passado dos limites. para ele, porque tinha me beijado e, para mim, porque não mostrou os peitos inteiros.
e comecei a andar.

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

3.9.05

"Só não saberás nunca que neste exato momento tens a beleza insuportável da coisa inteiramente viva. Como um trapezista que só repara na ausência da rede após o salto lançado, acendes o abajur do canto da sala depois de apagar a luz mais forte. E finalmente começas a falar."

(Caio Fernando Abreu)

ele chega, dança com ela e vai embora.

ela fica olhando para os sapatos.
ela fica odiando os sapatos.
ela pensa que não deve chorar por isso.
ela ajeita o cabelo.
ela quer, sim, chorar por isso.
ela ajeita o cabelo,
ela sabe o que quer.

oi.
faz tanto tempo, o que dizer que não pareça vazio?
nada não parece vazio
e tudo é ainda mais vazio - tempo
separador de semelhanças
as pessoas se perdem
até os irmãos se perdem
é, nosso espelho mudou
a gente escuta diferente,
eu não queria não dizer nada, eu juro que eu não fiquei vazia, assim,
de repente
tempo, falso senhor dos remédios
eu não quero mais estar aqui
eu estou aqui por um querer do passado
eu não quero estar aqui agora, eu quero sumir, fugir
a gente deixou a nossa magia escapar entre os dedos
chegar em casa, pés no sofá
a gente deixou tudo, tudo
o que tínhamos para estar aqui escapar entre os dedos
eu quero as paredes
sua boca, falta de companhia
eu disse que eu quero as paredes
me desculpa, eu não sei mais sentir.

o que ela quer é muito antigo. e o querer e o poder são separados por presente, futuro e passado.

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

2.9.05

é mãe, e por isso dela tira. dela tira até mesmo o novo; o impossível, ela pare de novo.

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

30.8.05

abaixo a cabeça,


você no meu café.

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

10.8.05

"A figura da mulher que passa suspende o tempo e o barulho ensurdecedor ao seu redor; por um instante o olhar se detém nas minúcias dessa figura feminina. O olhar retribuído, ainda que num relance, vai além e define a cumplicidade possível entre estranhos que se particularizam: eles sabem da fugida possibilidade de um reencontro: eles sabem o que deixaram de ganhar ao se submeterem ao acaso (Les fleurs du mal)"
(Londres e Paris no Século XIX)

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

20.7.05

"- É tarde, ele disse.
- Sim, é tarde, repetiu ela, meio boba.

Era quase madrugada e os dois só faziam repetir que era tarde olhando um pra cara do outro. Tinham que ir embora, mas essa era a primeira vez que se viam desde que namoraram há dois anos, quando foram completamente apaixonados. Agora, ficavam só naquele silêncio, agressivo
Ele quebrou:

- Tenho que ir.

E, em vez de se beijarem, trocaram tapas na cara. Foram embora felizes."

(tirado de www.soliloquio.blogger.com.br)

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13.7.05

há dias na vida em que a gente senta e toma uma decisão.
senta e toma uma decisão.
senta, cai um piano em cima, e toma uma decisão.
ou cai um piano em cima, senta, e toma uma decisão.
e não importa se durou um segundo a decisão.

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

8.7.05

ela estava sempre dizendo que tinha que ir ali e sempre dizendo que doía aqui que ia morrer que tinha uma vida ruim eu estava sempre dizendo que ela é vesga assim aí ela inclinou pra janela fingiu pôs os pés em cima da janela mas ela ficava só
olhando pela a janela
eu não disse que você ia cair?
sinto a falta dela, aiai.

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7.7.05

"si le ves a alguien el aliento de ese modo es como si le vieras el alma, y, claro, cuando le ves el alma a alguien te enamoras."
(juan josé millás)

esta história foi bonita para duas pessoas mas pra você vai ser
normal.

nem sempre eu gostei de retratos. retrato de gente, de movimento.
um retrato é falso,
tão falso quanto é o momento.
quanto lembramos das pessoas?
da primeira impressão, o feio que ficou bonito e o bonito que ficou feio,
uma ou outra coisa que ouvimos, é assim como guardamos as caras,
sempre caladas.
é incrível como reconhecemos uma expressão.
a memória embaça, as caras perdem linhas e contornos,
mas existe uma coisa que não tem nome, que não tem forma.
e a isso eu chamo expressão.
quando eu digo que eu nao confio em retrato, é porque
o momento registrado é tão irreal quanto o tempo,
e se o tempo nao pára como existe o momento?
o problema do retrato é que ele nao é correspondido;
quem tira a foto
não sai no momento.

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28.6.05

confissao de um fumante viciado:

aí eu bati com o carro e decidi
hoje eu comeco a fumar.

e comprei um maço de carlton.

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15.6.05

o pensamento é bonito, pisca o olho, feio.
incontrolavel, te trai.

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5.6.05

Éloge de L'amour:

- de qual americano v. fala, américa do sul?
- dos estados unidos, claro.
- claro, mas os estados brasileiros sao unidos também.
no Brasil sao chamados brasileiros.
- nao, eu disse estados unidos da américa do norte.
- os estados unidos do México também sao da américa do norte, no entanto se chamam mexicanos.
no canadá também, sao os canadenses.
de que uniao de estados v. se refere?
- eu só disse: estados unidos do norte.
- bem, entao como é chamado um habitante dos estados unidos?
viu? v. nao tem um nome.

por J. Luc Godard.

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31.5.05

e voce,
com quantos anos vai acabar a vida,
se render?
a gente pensa que é um só,
mas enquanto aqui chove eu te peco
nao pensa
e do outro lado está um dia estupendo,
faz sol.

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25.5.05

"civilizada me pergunto se o seu destino trai um desejo por cima de todos os outros"
(ana c.)

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31.3.05

quatro trechos nada haver.

quando a alma feminina se cansa, o espelho balança
o corpo dança e as orelhas ganham brincos.

como eu costumo dizer que chico me disse: põe a mesa no chão e o chão tá posto.

outra coisa, minha roseira é imaginária, aqui na janela tem vidro. rosa que é rosa, só em livro.
mas comprei uma luminária.

eu não fiz nada pra você gostar de mim.

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27.3.05

mas aí a gente acorda na segunda e está tudo igual, tudo está igual.

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20.3.05

não era um sorriso de frente nem era um sorriso de lado dizia o presente livre de futuro e passado não tinha história não devia explicações: era impunemente doce e leve como coisa que se repete sem evoluir, alguém sorri do outro lado da explicação
surge o impulso.

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15.3.05

"a menina tinha os seus quatro anos e, para passar o tempo, encostou-se no vidro do balcão-vitrina e ficou olhando para o meu rosto barbado. disse-lhe que ela era a menina mais bonita que eu tinha visto hoje. ela moveu a cabeça, concordando. perguntei-lhe quantos namorados tinha. apontou para mim dois dedos estendidos. 'dois!', disse eu. 'é uma porção de namorados, não é? como se chamam eles, meu bem?' ela respondeu, numa voz penetrante: 'bobby e dorothy'."
(franny e zooey, de salinger)

quando se esclarece o impossível, amar pode ser um inferno.

jaime, jaime, jaime, como é que você foi casar com laurinha, com aquelas perninhas? não vai dar certo.
- mande um beijo pra ela, viu?
como a gente trai o pensamento às vezes.
jaime, jaime, jaime, que tal ser amado em silêncio?
- leve um pedaço pra ela.
jaime, jaime, jaime, me pergunto se a sua bunda continua branca como um dia eu espiei...
- venha mais vezes!
... a gente só tinha nove anos.
uma vez, você pôs uma flor na minha mão para eu segurar e sorri, era minha. em seguida, tirou-a de mim. então percebi que ela jamais havia sido minha; foi aquele o dia mais triste de toda a minha vida, mais triste do que quando vovó morreu, mais triste ainda do que seu casamento e seus filhos horrendos.
outra vez, éramos crianças ainda, eu me maquilava só pra ser admirada e fui até você, que me perguntou rindo onde era o circo.
agora, se pudesse ler minha mente: são 35 anos, jaime.
compreendo que a nossa chance acabou nesta vida.

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11.3.05

o sol invade a cama
ela abre pouco os olhos,
sobrolho enrugado
e um sorriso de lado.

e quando a paz parece muita, berra, toca, o telefone; alô.

no vazio da conversa, o fio chega na cozinha. uma mão no telefone, outra num pote de biscoitos; oi? distraí por um instante, não ouvi.

- sabe, boas lembranças são doces pedaços de vida. é preciso um momento. um pequeno momento, quase inexistente.
mesmo que real ou criado, mas pequeno,
que é para não caberem imperfeições.
tem até vezes que a gente inventa só para ter do que lembrar depois.
quem nunca viveu de uma história?

- olha, tem um bicho enorme na minha cozinha e eu preciso matá-lo. ligo depois.

então sentou no chão e comeu distraidamente todos os biscoitos.
depois inclinou bem o pote e engoliu todos os farelos.
telefone na mão, fora do gancho, implorando um empurrão.

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8.3.05

eu poderia parar cada sinal para dançar na rua, você não gostaria
de fazer um padê burrê e desaparecer?

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3.3.05

"o que quer dizer, diz.
só se dizendo num outro
o que, um dia, se disse
um dia, vai ser feliz."
(Paulo Leminski)

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22.2.05

só falta a brisa.
é, cada um escolhe uma tecla pra bater em cima. quando tentamos fugir disso, voltamos a isso e só assim é possível escrever. mas se a vida cabe em mim
já não preciso retornar ao mesmo lugar, infelizmente.
eu queria estar vazando para todos os lados e procurar um divisor de águas de papel.
estou plena, e quero vazar. mas ao vazar logo rezo por sossego.
qual é o truque do desassossego?

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16.2.05

- nasceu!
- huéééé...
- quer segurar seu irmãozinho?

***

- hi, mãe, desculpa...
escorregou!

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14.2.05

"O céu, quando entra em mim, o vento não faz, voar, esses
papéis."
(ana cristina cesar)

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7.2.05

nos reencontramos, mas tempo não é sinônimo de conserto, pelo contrário, se a espera é longa demais mata um futuro, assim como o que não é bem pensado pode matar: esperar é pensar demais. talvez existam pessoas que realmente nasceram para esperar outras e assim imagino que suportem o tempo, os grandes amores; mas se duas pessoas que nasceram para fazer esperar esperam, então o tempo mata a coisa roubada e não há sequer um fim, o que existe é uma interrupção.
até que adiantem os relógios.

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1.2.05

digo pouca coisa, penso nelas como fáceis
pra mim são indizíveis, acho que existem palavras que não são bem palavras
se não podem ser ditas nem escritas então penso que não são palavras
às vezes eu misturo sentimentos com palavras, mas quando escrevo o que sinto não passam de palavras
interpretáveis palavras.
sentimentos são inócuos às palavras, eu descobri.

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30.1.05

- e agora, maria?

- já não posso saber seu paradeiro

sumiu como um suspiro faz cinco anos que eu virei uma madalena arrependida e fiz promessa pra deus de não cortar os meus cabelos

agora eu sou feia e só queria aparar essas pontas no barbeiro ao lado da padaria, mas fiz promessa pra esse amor que rima com a dor de ser patético que mais de 350.000 só brasileiros já escreveram para seus ditos amantes

eu só me esqueci que era preciso saber o telefone; que os santos não tinham sequer o endereço. e que promessa não era um achados e perdidos, eu não ascendi vela porque não acreditava nessas coisas.

- então toma o cartão do cabeleireiro.

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26.1.05

"- onde está o carteiro de sempre?
- dona, POR FAVOR, como posso saber? eu estou aqui e ele está em algum outro lugar!"
(charles bukowski, em cartas na rua)

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20.1.05

não vamos cair no desconsolo, já que de tudo merecemos um pouco. o que incomoda agora é a gente ter sempre dois destinos, ou uma válvula de escape. o que desespera agora é o ontem mal resolvido, é a lembrança não apagada - a boneca precisa ser dada se quiser crescer.
- e aí, já decidiu?
- decidi.
e isso tudo só porque tomar decisões é muito complicado: o certo dói um vez, mas o errado dói para sempre.
e jogou a loirinha sem braço no saco de coisas para dar.

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15.1.05

ônibus 123. um homem entra revoltado com a própria pobreza. olhos cheios, a boca desvairada aponta; quer berrar. eu o observo tímida, sou a única pessoa daquele assalto que o observa. tudo porque são todos vítimas e cúmplices da mesma espécie de sujeira - a humildade sobrevivendo a pão e água. meu coração palpita como uma flor de calçada, o verde rompendo o cinza, o vermelho das máscaras de kabuqui. de repente (não sei se felizmente ou infelizmente) o homem me olha e, em um ato de extrema defesa, me escolhe para morrer: a minha humildade andava bem vestida, não viva de migalhas.
a culpa não era minha, a culpa nunca foi minha. mas as vítimas também são as culpadas.

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14.1.05

uma bonita ingenuidade de expressão comovente... talvez um dia lhe chegue a felicidade. acredita no futuro, vive nele. quase não pensa no presente: não conhece o real porque constrói o amanhã, mas amanhã já não vive.
talvez se realize assim, eu gosto de pensar só para me enganar e achar um jeito de não sentir mais pena: este sentimento de superioridade.

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13.1.05

Você me olha e você me entende.
Pronto. Pronto. Pronto.
Já não posso falar.

Despe-te dos pudores
Nua na ventania
"Você quer ir embora?
Então vai"
Versos pernetas
Palavras espancadas
Hematomas
"Como é que seria
dormir te ouvindo falar?"
(versos da minha pequena Li.
Li, desculpe te invadir assim)

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10.1.05

"Mas às vezes pouso os olhos em você, que está de costas, e não
te toco, com discriminação.
[...]
Há qualquer coisa de perverso no jeito em que a gente diz -
[não é nada, não é nada."

(Ana Cristina Cesar)

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

9.1.05

se eu dissesse que meu primeiro contato com a morte foi uma mariposa, eu estaria mentindo. na verdade a morte nunca me importou, eu só lembro do primeiro contato que tive com o amor. ele me seqüestrava para trás de um caixote, e éramos tão pequenos que cabíamos inteiros escondidos ali. juntos, ocupávamos um espaço menor do que o de uma pessoa. digamos assim que éramos meia gente, mas nos comportávamos como o mundo inteiro, ou como o que víamos dele nas novelas. chegando no local almejado, fazíamos o proibido - dávamos as mãos. eu aprendia coisas como frases feitas e aprendia que às vezes era preciso ficar sem fala ou deixar o outro assim apenas para dar um ar de importância à cena. então eu dizia coisas como "não podemos mais ficar juntos" sem dispor de razão e, quando ele me fazia uma pergunta sobre a minha pergunta, eu não sabia o que dizer e dava sempre a mesma resposta
"porque temos cinco anos".
como nem tudo são flores, também aprendi que é realmente impossível amar e ser feliz ao mesmo tempo (me disse nelson rodrigues três anos atrás). como? ah, ele tinha cinco namoradas (sem contar comigo, é claro), e levava todas para o mesmo esconderijo.
mas só na adolescência que eu fui descobrir isso, uns dez anos depois.
- ele fazia isso com você também?
- durante as aulas de pintura com o dedo.
se eu tivesse descoberto antes... teria grudado muito chiclete no cabelo dele!

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8.1.05

espelho.

se eu fosse sido um bêbado... cantava: a minha desgraça é som de praça
todos querem ouvir
para terem pena por serem também assim
sem-graça
comentando, cochichando
"isso é triste"
se perguntando, se achando
em mim
se escondendo, com medo
todos sentem é por si
e fogem como lobisomens no fim
penso: se eu fosse um bêbado... a minha desgraça estaria ecoando pela praça.

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7.1.05

foi porque eu não esperava. eu podia ter olhado mais detalhadamente para as coisas e pessoas e então nada teria acontecido. qualquer aproximação eu não senti, porque estava tão centrada desdenhado memórias, que não enxergaria mais além ou, no caso do que acabou acontecendo, à frente. o outro sentou-se ao meu lado e esperou que eu iniciasse uma comunicação, mas eu estava inábil - quando já era preciso cuidar das palavras e pensamentos para não desviar do controle designado a mim pelo momento. o outro quis dizer qualquer coisa reparadora, mas calou num bolo seco que desceu pela garganta até os pés. ficamos mudos por tanto cuidar das palavras, e doentes de um silêncio sem solução; ah, havia tanto a ser dito e a calar! existíamos tanto que nos incomodávamos. a existência do outro me era tão incômoda quanto a minha se fazia em sua presença, guardando bem tímida um breve suspiro que se falasse nada diria, apenas expressaria um pedaço de vida e saudade morta, só porque o tempo passa e o viver da gente muda e se amolda e acaba perdendo a forma antiga; aquela velha e boa forma antiga... dizer alguma coisa não podia ser mais um dizer bobo e belo e impulsivo como era antigamente (,) porque hoje parecia inútil falar do céu. o outro, pois, levantou-se e foi embora, tomar molde de outras coisas; ou falar do céu.

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5.1.05

"lágrimas nos olhos de cortar cebola, você é tão bonita"
(Caetano)

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3.1.05

tem uma mulher do outro lado do bar me olhando com uma cara meio esquisita. ou ela vai me matar, ou vai me amar, as mulheres têm dessas coisas. uma água sem gás, dois gelos no copo. eu tenho algum dinheiro, nada que valha um seqüestro ou um capítulo de novela. nada que eu possa usar para fazer um filme, ou investir em um banco. eu nem sirvo para patrocínio, ué. a mulher levanta e vem vindo; vejo o corpo inteiro e vem vindo; os sapatos são pretos e vem vindo. não usa saia vulgar. pensando bem, ela vai me matar.
diálogo verdadeiro:
- nos conhecemos de algum lugar?
- do maternal.
diálogo possível, mas inventado:
- nos conhecemos de algum lugar?
- nossa, como você ficou gostosa!
diálogo verdadeiro:
- tem fogo?
- sim, aqui está.
diálogo possível, mas inventado:
- onde fica sua casa?
- logo ali.

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família.
era uma vez um menino que se chamava bartolomeu e sofria porque era pobre e tinha muitos irmãos então começou a trabalhar cedo e pensou que não desejava aquilo para ninguém pois que teve um filho e de repente se viu obrigando o menino a passar por tudo o que passou e sorriu de satisfação.

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30.12.04

"o que mais me aborrecia era que à primeira vista as pessoas geralmente me consideravam bom, bondoso, generoso, leal, fiel.
talvez eu possuísse essas virtudes, mas, se assim fosse, era por ser indiferente.
podia dar-me ao luxo de ser bom, bondoso, generoso, leal e tudo o mais, porque era desprovido de inveja.
inveja era uma coisa de que nunca fora vítima. nunca invejara pessoa alguma ou coisa alguma. pelo contrário, eu só havia sentido piedade por todos e por tudo."
(henry miller)

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27.12.04

"até no capim vagabundo há desejo de sol."
(C. Lispector)

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19.12.04

marianinha foi se fechando, foi se fechando, foi se fechando
até se sentir bem encolhidinha; é possível abraçar o corpo todo, mamãe!
então trovejava.
e mais um rasgo no céu e menos marianinha restava na terra.
de repente ela virou uma bolinha tão miudinha de medo, que a mosca abriu a boca e comeu.
quando o maior ovo do mundo estrelou no céu,
a mãe (que dormia em rasos lençóis) estendeu bem os braços ao espreguiçar e quase matou marianinha, mas a mosca subiu para o teto e ficou a olhar navios.

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18.12.04

eu estou apaixonada. quero sentar no lugar dele, ocupar sua existência - sou ciumenta, mas não diria possessiva porque não posso comprar uma pessoa como se compra um casa, uma bijuteria barata de esquina, embora também se possa achar pessoas em esquinas - foi assim que eu o encontrei, virando uma esquina. pode não parecer especial dizendo assim, mas por ter sido em uma ponta de rua que me fez acreditar que era aquele o melhor dos momentos. não sei se me encontro apaixonada porque não devo me conceder essa dor, ou porque há tempo surgiu em mim um desejo qualquer, solto e de livre arbítrio. talvez o desejo tenha se abrigado em mim, talvez tenha se escondido nele e eu preciso achá-lo a qualquer custo, pois quanto vale um desejo, um milhão? o valor de um desejo - e é uma enorme petulância minha dizer assim, defini-lo - pode até ser um milhão, mas vale o tempo que se gasta rojando atrás dele. e as roupas sujas impossíveis de se lavar.

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17.12.04

se faço torto é porque cansei:
a vida é só e apenas isso?

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15.12.04

pesavam na coluna os noventa anos de dona dulce e, de repente, ouvia-se um estalo - pec - e a mulher grunhia. eram assim os dias (perpétuos rituais), mas a ninguém incomodavam; ah, faz tantos anos que todos partiram.
era como se cada fio branco de cabelo aparecesse para cada coisa perdida, para cada memória esquecida; e lá se vai a vida, que horas são?
então escurecia, como todos os dias. e dona dulce esticava bem os lençóis e morria. morria toda noite só pensando em acordar diferente, em se livrar daqueles noventa anos mal vividos, ou abandonar o corpo (já tão frágil, já tão cheio de marcas) para imaginar campos de trigo, sol sem calor, chuva sem miseráveis embaixo da janela; feliz natal, suspira dona dulce à pequena araucária sem bola, sem fita, sem nada.
- minha pequena araucária...

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14.12.04

"tenho um pouco de medo: medo ainda de me entregar pois o próximo instante é o desconhecido."
(Clarice Lispector)

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11.12.04

passou na feira, mordeu a maçã.
isso mancha, mãe?
ninguém respondeu.
era segunda-feira, dia de feira,
sujeira na roupa, muito sabão pra limpar.
e o pecado era exatamente este:
quando a criança não é mais criança
pergunta se a roupa vai manchar.

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9.12.04

- sua peste! eu nunca mais quero ver você por aqui, me entendeu?
mas ele era tão pequenininho, mas tão pequenininho, que não entendia palavras grandes como nunca. tinha dez anos e isso era o máximo que conhecia. como só lembrava dos últimos dois, achava um dia muito e também achava que o nunca durava assim, mais ou menos um dia.
- você por aqui de novo?
- eu só queria saber.
- se eu uso calcinha?
- não. como é que prendia aí embaixo. mas agora eu sei que é solto. e não voa, não?
- se bate vento, voa. só isso?
- não. e quanto tempo dura o nunca?
- sempre.
então ele nunca mais saiu de lá porque
[ se o nunca durava um dia ]
o sempre nem chegava a ser.

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8.12.04

"- Good morning, Mrs. Dixon! I'm the cleaner!
- What? The killer?
- Not yet, Lady, not yet. Only the cleaner..."

(Caio Fernando Abreu, em London, London)

pow-pow.
"good morning, mrs. dixon! i'm the killer!"
"what? the cleaner?"
"not yet, lady, not yet."
(para douglas, pow-pow)

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5.12.04

passo por um incômodo irremediável.
sento e levanto; olho e empurro; acalmo e desespero.
de repente eu paraliso; esqueci-me da vida!
em seguida espanto-me com o que não posso tocar nem olhar; de onde vem?
de nada adianta corrigir uma ação com outra esquecida.
descubro que é incômodo de alma. é incondicional.

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2.12.04

- serviço de atendimento ao consumidor, em que podemos ajudá-lo?
- a minha família.
- o número, por favor.
- 1234.
- um minuto, por favor. sim?
- a minha família quebrou.
- todos os membros ou apenas um em particular?
- todos os membros.
- quando você pressiona o chip, aparece alguma mensagem?
- dá erro número 121.
- em todos os componentes?
- em todos os componentes.
- um minuto, por favor. erro 121. o que está acontecendo com a sua família?
- resolveram brigar.
- briga. sim. e... o motivo da briga foi qual?
- foi no jantar. meu pai não deixou meu irmão mais novo passar o sal para minha mãe porque dá azar.
- azar. sim. e depois disso o que aconteceu?
- a minha mãe se levantou e pegou o sal. então ficaram todos em silêncio e depois começaram a cuspir a comida no prato.
- inclusive os seus avós?
- sim, foi cuspideira coletiva.
- e você?
- eu saí da mesa. e então, tem conserto?
- seu erro foi computadorizado. estaremos enviando um técnico dentro de 24 horas. qualquer informação entre em contado conosco, a sos desfamiliarizados agradece sua ligação.

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1.12.04

vai ver eu tenho um cofre de moedas perdidas
e nem sei.

eu queria dizer pra maria que aquele jeito dela desengonçado não era feio.
era até muito charmoso você cheia de coisas, alguns objetos achatados embaixo de outros, parecia cabide.
escrava do inútil carregava sempre tudo errado. se nada quebrava, trazia o conserto.
eu queria saber por onde anda, se continua toda distraída.
eu comprei uma bolsa pra você. tão bonita. paetês e tudo. mas eu nunca entreguei a tal da bolsa.
sempre achei que você preferiria estar enrolada nas coisas só pra pedir
"me ajuda?"

pensando bem, a maria nem existe mais. não aquela.
talvez já tenha até alguém no lugar da maria, eu que nem percebi.
eu que nem percebi só porque ainda acreditava nela, podia estar por aí esbarrando nas coisas quem sabe um dia então assim distraída não esbarrara em mim?
confesso que comprei este apartamento no andar da família de maria, mas ela nunca visitou ninguém, nem pra ganhar presente de natal.
eu tinha colocado um anúncio no jornal para vender. depois liguei pro corretor eu mesmo e reservei. paguei caríssimo pra tê-la de volta.
ela, que nunca mais me apareceu.

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30.11.04

comunicação.
a janela bate. barulho.
"hi, vai chover!"
"estou limpando."
"e daí?"
"e daí que não vai chover."
silêncio. veja. janela, veja, pano no vidro da janela. brilho, fedor de veja. vizinho na outra janela fechando a janela, a menina imaginou a cena que não podia ver.
"você não ouviu o barulho?"
"que barulho?"
"a janela, meu deus! onde você está com a cabeça?"
"a janela bateu porque eu estou limpando os vidros!"
.
.
.

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28.11.04

- meu nome é lampião porque as moças daqui tinham tudo medo do escuro e me chamavam pra dormir com elas. eu ia, é claro, porque a minha cama era na palha e coçava demais a noite inteira. além disso, fedia a bicho, tem sempre muito bicho em volta de mim. então antes de sair eu passava era muito sabão e fazia era muita espuma pra soprar pro céu, mas elas caíam era tudo no chão. depois eu deitava bem do lado das moças, um pouco acanhado, e elas diziam , ai, cheiro bom. tô pensando em trocar de nome, acho que o medo do escuro passou. elas têm medo agora é do cheiro das fronhas. e nos quartos delas tem luz. sempre teve. elas que não sabem.

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27.11.04

sábado, dia qualquer. a diferença? todos os moradores se encontram em casa.

"hum, que preguiça". o gordo lê jornal porcamente. prefere as fotografias. o garotão vinte anos assiste à televisão do gordo, vinte e quatro horas ligada. derrama cerveja na barriga da menina que faz abdominais embaixo.
"ei, você de novo!"
a senhora cozinha, dia de jogo e almoço de família, comida dobrada.
são duas horas. a chica volta da rua com o cachorro. entra em casa atropelada.
"cuidado, bolinha!"
"esse cachorro! devia ser proibida a entrada de animais neste prédio!"
"sh, silêncio. assim não se escuta a tevê, porra!"
"hum, que falatório. mas eu que não saio desse sofá. mais tarde eu pego outra cerveja..."
"desculpe, senhora, mas o meu cãozinho tem que passear. a senhora não passeia?"

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24.11.04

eu sou diferente, mulher sofisticada. não guardo lixo embaixo da cama. caixa de papelão, jacaré, bola de vôlei, nada.
tem é um homem gostosão, século XXII já: pelado e musculoso.

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23.11.04

"e tudo o que ele dissesse sobre a verdade e sobre o bem e sobre o belo não significava mais para a maioria das pessoas do que uma rosa para uma vaca."
(h. andersen)

cansada dessas histórias fantásticas de sapatos e sombras, bem e mal, quando um se deixa inexistir para dar lugar ao outro.
vida: que pode ser triste, mas o triste é impossível. e tudo isso só porque o oposto deixou de existir quando da felicidade nasceu a tristeza e da tristeza, a felicidade.
nada no mundo teve mais nome quando a sombra comprou sapatos vermelhos de verniz; e nunca mais parou de dançar.

ao querido mario cezar,
você escreve porque sim. não existe melhor resposta. é, porque sim. e se disserem que está incompleta, então você pergunta cadê deus e o diabo nessa terra normal? tão normal que eu posso ver as rachaduras do nordeste, e sentir o perfume francês das mulheres do sudeste.

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

21.11.04

só assim para me ouvir. só assim que eu seguro ela com força até rasgar e amoldo-a na estante em frente para não tombar. depois danço e continuo a vida para então me virar e dizer
- só me olhando, ahm?
e achar o ridículo vivo dentro de mim, pôr a vergonha de volta no baú, onde ficam as coisas a serem lembradas - lugar perfeito para uma foto antiga que nunca vai parar de me sorrir, não vai ficar velha. hoje, a diferença é pouca entre mim e ela, por isso ainda estou enamorada. ela, sempre satisfeita, presa numa juventude eterna. quase viva. daí a nostalgia por um sorriso preso e tão falso como são os dirigidos a um fotógrafo. mas eu ainda prefiro acreditar na verdade que ele desperta em mim, o sorriso.
- perdeu alguma coisa?

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19.11.04

"[...]
Eles se mexiam agitados, rindo, a sua família. E ela era a mãe de todos. E se de repente não se ergueu, como um morto se levanta devagar e obriga mudez e terror aos vivos, a aniversariante ficou mais dura na cadeira, e mais alta. Ela era a mãe de todos. E como a presilha a sufocasse, ela era a mãe de todos e, impotente à cadeira, desprezava-os. E olhava-os piscando. Todos aqueles seus filhos e netos e bisnetos que não passavam de carne de seu joelho, pensou de repente como se cuspisse. Rodrigo, o neto de sete anos, era o único a ser a carne de seu coração, Rodrigo, com aquela carinha dura, viril e despenteada. Cadê Rodrigo? Rodrigo com olhar sonolento e intumescido naquela cabecinha ardente, confusa. Aquele seria um homem. Mas, piscando, ela olhava os outros, a aniversariante. Oh o desprezo pela vida que falhava. Como?! como tendo sido tão forte pudera dar á luz aqueles seres opacos, com braços moles e rostos ansiosos? Ela, a forte, que casara em hora e tempo devidos com um bom homem a quem, obediente e independente, ela respeitara; a quem respeitara e que lhe fizera filhos e lhe pagara os partos e lhe honrara os resguardos. O tronco fora bom. Mas dera aqueles azedos e infelizes frutos, sem capacidade sequer para uma boa alegria. Como pudera ela dar à luz aqueles seres risonhos, fracos, sem austeridade? O rancor roncava no seu peito vazio. Uns comunistas, era o que eram; uns comunistas. Olhou-os com sua cólera de velha. Pareciam ratos se acotovelando, a sua família. Incoercível, virou a cabeça e com força insuspeita cuspiu no chão."
(clarice lispector, em feliz aniversário)

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17.11.04

o menino não tava nem aí porque a vida parecia tão eterna que mais um dia de tédio não traria solidão.

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16.11.04

"não, não, ele não esqueceu da mocinha, mas devia tê-la esquecido [...], vamos deixar de poesia."
(rubem fonseca)

quando criança deve ter querido matar um gato recém-nascido só pra saber como funciona a outra vida.

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15.11.04

"Quem é você?
Adivinhe, se gosta de mim
Hoje os dois mascarados
Procuram os seus namorados
Perguntando assim:
Quem é você, diga logo
Que eu quero saber o seu jogo
[...]
Deixe o dia raiar
Que hoje eu sou
Da maneira que você me quer"
(chico buarque)

quebre como quiser.

acho alguém que invento alguém que me inventa hoje eu posso ser quem quiser e o que for de todos os tipos que na verdade eu não sou.

acho alguém que invento alguém que me inventa.
hoje eu posso ser quem quiser e o que for
de todos os tipos que na verdade eu não sou.

acho alguém quê.
invento alguém que me inventa.
hoje eu posso ser quem quiser.
e o que for de todos os tipos quê.
na verdade eu não sou.

acho alguém que invento.
alguém que me inventa hoje.
eu posso ser quem quiser e o que for de todos os tipos que na verdade eu não.
sou.

... etc e tal.

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12.11.04

o verdadeiro romântico.

"agora você é minha mulher, e isso é suficiente para fazer-me odiá-la. mas se você fosse a mulher de algum outro, isso seria suficiente para fazer com que eu a amasse."
(lord byron declarara à esposa)

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11.11.04

"Mas também creio que chorava porque, através da música, adivinhava talvez que havia outros modos de sentir, havia existências mais delicadas e até com um certo luxo de alma."
(Macabéa)
então: eu já disse que ela chorava, né?
não ela - a macabéa -, porque ela é personagem do rodrigo, que é o narrador de "a hora da estrela" (da clarice lispector).
bem que eu queria estar falando daquela magrela, mas estava mais pra capitu, porque era bem roliça a madame que eu vou narrar em cinco linhas.
pois chorava porque perdeu amor. todo mundo chora quando perde amor, mesmo quando é grito de aleluia. chorava e soluçava e parecia que era só pra alguém chegar mais perto e dizer que está tudo bem, fincar os dedos nos ombros, fixar os olhos nas suas redondas amêndoas e dar um último suspiro (comprido) como garantia do prometido.
mas a moça chorava tão e tão isolada, que até apagada ficava, esquecida no mundo. na verdade, assim como macabéa, ela nem existia. só porque não se sabia existente. e chorava, mas a única música que ouvia era a curva do horizonte, o vento fazendo a curva.
mas não era reto?
não teima, é redondo. e faz curva lá no final; enfim, não interessa. interessa que de um lado ou do outro vai dar em curva.

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10.11.04

é com a delicadeza dos dedos que destruo o inimigo mortal. sei da sua falta de amizade apenas porque quer matar-me. eu não o odeio, nem jamais poderia conservar tal sentimento por um robô de guerra movido pela obrigação.
sei de todos os seus passos e permito-me recuar para virar-me para outros inimigos que surgem tamém, títeres e cheios da mesma vontade de ver meu sangue jorrar.
eis que em um ato de desagradecimento ressurge como uma fênix pulando e me cedendo espaço para um segredo - um de seus esconderijos - o soldado que antes eu permiti que vivesse, mas agora eu o aniquilo com um tiro previamente mirado (eu disse que sabia seus passos) no lado esquerdo do crânio.
segundos antes, percebo nele um olhar de leveza, e logo entendo que ele não me odeia também e não me quer mal. sinto pena; e da pena já não sei mais de olho, já não sei mais de suporto essa tela que não mais me atrai. mas, como eu já disse e repito uma terceira e última vez: sei de todos os seus passos, o que me torna obrigado a atirar, porque nós, a realidade, não devemos ter medo nem piedade da ficção.

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9.11.04

ele tinha prometido mais que tudo no mundo e ela tinha acreditado só porque se era tudo no mundo então não sobrava espaço pro não, mas no fundo ela sabia que era só mais um dizer desses dizeres que podem até sair do coração ou do fundo da alma da gente, mas que nunca passam de apenas um não. não vai acontecer. vai ficar uma esperança funda e comprida bem viva até morrer, se morrer.

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7.11.04

pois que agora eu só vou falar dum tombo.
é, ontem eu tava andando nos tacos sem fim e aí caí. foi só isso. pronto: não falei de amor, de dor e nem de machucado, porque eu caí e não pinguei uma gota de sangue.
depois eu mandei botarem carpete. justo eu, que tinha horror àquela coisa brega. então eu espirrava e era até harmônico, mas não tombava mais, não. era de uma melodia só que parecia até assovio de bicho.
o chão ficou molhado quinem um mangue (era verde o carpete). onde eu metia os pés o danado do chão puxava até a canela, mas também não machucava. era uma merda duma poça que eu deixei do primeiro tombo sem primogênito, eu achava, até começar a atolar os pés. ficou uma poça de vergonha metida mesmo, o troféu da vexação pra essa minha cara de madame maljeitosa.

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5.11.04

se eu fosse um bem - te - vi, eu ficaria na sua janela toda desimportada da calcinha que você usa nem aí, e eu levaria pólen pra nunca deixar de fazer florir uma pétala, dessas de desfolhar nas suas mãos um bem - me - quer, mesmo que você nunca saiba que fui eu quem a plantou, mesmo que todas murchem com o vento, ou que encharquem com as chuvas. mesmo que todas essas palavras sejam clichês o suficiente para fazerem juntas o sentido único das palavras que falam de amor, porque eu vou falar de amor - é inveitável e universal, tamanho único, sentimento inexorável para o mundo - mesmo pelas metáforas mais batidas, ah, eu vou falar de amor. mesmo se eu não for um bem -te - vi em outra vida.

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3.11.04

[...]
o amor era só o amar,
como essas duas mãos que se dão e se vão num estalo de estar.

[pedacinho do texto que eu fiz com a luiza vereza]

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1.11.04

quando eu era pequena, me deram "o pequeno príncipe nas mãos". foi uma espanhola verdadeira, dessas que batem castalhonas nas mangas rodando saias geralmente vermelhas, ou pretas; ou vermelhas e pretas.
seu nome era dollores, sonoro e meio brega, metido nas castanholas de adulto (porque eu não sei se sabes, mas existem as pequeninas, perfeitas para crianças. costumam ser de plástico, bem vagabundas e quase não produzem som).
assim era dollores, mulher de muito escândalos e sangue quente, a bruxa do sétimo andar (garanto que tinha uma lagartixa morando com ela).
com o passar dos anos, sumiu da minha vida, como coisa não cativada some. imagine só: cativar uma espanhola.
mas, se os ventos soprarem um navio espanhol e ele vier por acaso ancorar no porto do rio (ela costumava cantar em navios), eu darei um sorriso a ela por esta graça:
"tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. e eu não tenho necessidade de ti. e tu não tens necessidade de mim. não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro."

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31.10.04

porque por aqui tem tantos olhos que quase me perco, mas é impossível não notar os corriqueiros.

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30.10.04

o mundo parecia por demais lento. os olhos concentrados nos azulejos faziam dele um homem atento - era momento de tirar a água do joelho.
pois foi que a pequena janela de loiça transformou-se em lindo quintal de margaridas, onde quando criança havia matado uma inocente flor amarela apenas para enfeitar os cabelos de uma donzela - as moças ainda se portavam dignas do nome.
e que diabos teriam as margaridas a ver com a água que saía?
enfim, de nada sabia. via seu rosto em um espelho contemplando a graça que sentia, só não sabia se pela água que expulsava, ou pela lembrança que o envolvia.
sentiu um alívio imediato, era aquele o mais forte dos analgésicos.

(porque os textos feitos em bar também têm seu valor - de maria-sem-vergonha)

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28.10.04

- tem uma gota escorrendo pela xícara, olha.
ninguém se move, como se não houvesse nem gota nem xícara.
então a gota finalmente escorre e suja a mesa, mancha a madeira.
mas ninguém se move, como se não houvesse nem gota nem xícara nem mesmo mesa.
não há ninguém na verdade, foram todos mortos pelo cotidiano.

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26.10.04

o que eu escrevo vem de fora pra dentro. o meu lamento é que vai de dentro pra fora, pobre diabo com dor de pecado - lembra de tudo.

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25.10.04

a rua agora já tem cor, e eu me vejo em sépia nas calçadas. então desejo voar ouvindo heroes sem ninguém me notar no céu, deixar meus amores bem grudados no chão com goma de mascar e eu lá só a voar e voar, descobrindo como os pássaros têm trabalho no adejar.

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24.10.04

o que tu queres que atrapalhou o cozido, arregalam os olhos da cozinheira real. eu quero ajuda, suplica a boca cheia de angústia. ajuda pra quê, aponta o queixo da cozinheira em ar blasé. um barco, arrelva com a mão o peito pobre do último suspiro pobre do pobre. e barco pra ir aonde, a empregada levanta os ombros. quero achar os clowns de sheakespeare, vou à inglaterra. mas tu não podes falar com o rei, degusta de um prazer mórbido a mulher, diga o que me darás em troca e eu deixo tu adentrares a porta certa, porque essa que bates só teu procurado não escuta. tu terás asas para ruflar e o lirismo dos bêbados, diz o homem na última esperança do peito que dói. entra então rápido para não seres visto e abre a porta vermelha de bonita maçaneta.

rei, exclama dionisíaco o homem. faz o que quiseres, não hesitou o rei. mal sabia o poder que os revolucionários têm. entra e faz o barco que quiseres que o mar pra ti é lagoa. e não acreditava na ideologia viva dos homens que têm fé. pois foi o pobre acocorado até a terra do relógio.

encontrou o lirismo na condição de oprimido, e sabia só poder encher um vaso até a borda. então cortou os pulsos e deixou escorrer a loucura das veias, que já vazava. abriu o teatro do mundo, a caixa de pandora dos moribundos.

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22.10.04

o segredo da mulher:

seu rosto era de maria com os olhos de madalena, sorriso de maria e cabelos de madalena. não podia ser só maria, nem ser só madalena. seu nome ficou sendo maria madalena. era doce como maria e mole como madalena.
as roupas eram de maria, mas só pra enganar. fisgava desta forma mesmo: no começo era apenas maria e depois bem madalena. para então - só no final - ser maria madalena.

o que ele vê:

uma tinha asas de fogo. cru. indomável. outra tinha a primeira florescência do pólen. uma tinha no peito toda a sangria do açude. outra , o remanso transposto pelas canoas simples. uma tinha os seios inflamados de gozo. lábios lascivos. outra, erguia o silêncio.
texto em itálico por mario cezar

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20.10.04

você achou que eu era doce e não falava puta que pariu. depois pensou em mim boneca e - como se não bastasse - quis me colocar na estante. mas eu percebi primeiro e saí de fininho, antes que a minha maior liberdade fosse olhar suas paredes. fui viver uma vida mansa e morna como um chá de camomila sentado em velha e trançada cadeira de balanço dum quintal em estado de caquexia - nesse ritmo bailava o meu coração, baileco -, onde madeixas seguravam minha bunda. assento frágil que podia arrebentar: o meu amor não era incondicional.
logo choveu forte. então eu pensava como era boa aquela época cheia de vida, quando eu gostava de vê-la passar. o agora já me assustava; e o futuro, mais ainda. o presente eu olhava como olhava o nada pela chuva, embaçado. e via seu rosto, nublado e deformado.
assim também era a janela.

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19.10.04

ela vivia da não vida
ela que não era
e desejava que sua loucura envenenasse outras veias
fazendo cabeças que ainda eram
nada ser
os outros olhos acharam que era doce
e foram provar
degustaram do mais puro mel que poderiam encontrar
lamberam os beiços e se deixaram esperar
ela que era de mel e flor
num imenso deserto de margaridas

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18.10.04

que nunca quis ser grande e balançava as pernas e braços no ar. era o doce balanço daquela vida, e assim também era a sustentável leveza daquele ser.

"Aceitarás o amor como eu o encaro?

... Azul bem leve, um nimbo, suavemente
Guarda-te a imagem, como um anteparo
Contra estes móveis de banal presente.
Tudo o que há de melhor e de mais raro

Vive em teu corpo nu de adolescente,
A perna assim jogada e o braço, o claro
Olhar preso no meu, perdidamente."
(pedaço de Mario de Andrade)


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17.10.04

crise existencial de pirua (palavra que não tem no dicionário. e não é grão de pipoca): um bela silhueta.
estou atrasada, já disse. atrazada com zê porque a pressa é grande e nem vai dar tempo de reler. preciso de um banho, pepinos nos olhos. sou uma bela duma perua, beibe. pirua mesmo. gosto de ser mulher, entende? não, é claro que não, os homens não entendem. só eu sei que vou passar uma vida projetando em vocês os meus desejos e roubando a felicidade dos olhos de quem vê. a minha beleza está secando com vocês. olhos de posse - minha destruição física e mental. agora saia da minha frente que eu preciso tirar a touca. quem disse que meu cabelo é liso assim?
é egoísmo, beibe, mas tente entender: a felicidade é um belo vazio com pepinos tratando das olheiras.

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16.10.04

o desenho mais bonito que eu vi: não lembro do céu, mas acho que tinha nuvens e sol ao mesmo tempo, pois dava uma impressão de abafado, o desenho. e era tão bonito
que chovia dentro de mim.

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11.10.04

"tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram."
(madame lispector)

com a pressa que há de roer a roupa do rei de roma:
viajei.
até sábado
;]

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8.10.04

eu via o sol quinem ovo brilhar amarelo no céu e você dizer que já era dia, mas eu dormia. então o sol adentrava a janela e eu me perguntava se não podia ser sem janela; minha inútil tentativa de vencer. porque o sol, se não invade, esquenta; e se a gente não deixa ele entrar, consome feito sonho bom.

... eu quero uma sacola pra guardar meu tédio:

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7.10.04

meu ciúme é marrom porque marrom é a cor dos meus olhos.

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5.10.04

fino trato

amor - coçada na barba, escarro, coçada no saco - dei seus ursos.
como?
aqueles bichos felpudos, amor, me dão alergia. além do mais, são graciosos demais para o nosso ambiente. pense, amor, um urso olhando pra minha guitarra?
eu não estou acreditando.
amor - escarro, cuspe, escarro - algum problema?
nenhum, amor.

no dia seguinte, lídia estava de pé. e sorridente.
amor - cabelo pra direita, ajeitada no brinco, coque - dei a guitarra.

anos depois, derreteram as alianças, que renderam um par de brincos para lídia e outro para sônia, a nova namorada de pedro, ex de lídia.
mas sônia era roqueira e não usava jóias. por sua vez, deu os brincos para mãe, que gozou do mais fino trato.

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3.10.04

seu canalha!, paft - estalou o tapa no rosto.
como pôde?
não foi culpa minha.
claro, o sujeito é sempre inexistente.
sim, não há dúvidas.

duas horas depois no quarto.
meu amor, eu perdôo você.
que bom, querida, fico feliz.
afinal não faz mal, você ter fumado meu maço não é tão ruim assm.

beijos, abraços, carícias quentes.

fungada, fungada.
seu hálito está fedendo!
mas meu amor...
vá se lavar. compre bala, chiclete; mas faça alguma coisa.
e você?

paft!
você tá me chamando de bafenta? como pode?
não foi isso que eu quis dizer.
claro que não, o verbo é intransitivo.
qual?
amar.
agora vá lavar a boca.
você venha junto.

paft!

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2.10.04

sorriso maroto guardando
um astro de rabo longo

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1.10.04

então era gente que não acabava mais saindo pela portinha. não que a porta fosse pequena, mas era gente demais que saía por ela.
me enfiei no meio dos cheiros, calor, vozes - queria ver que diabos havia do outro lado do aglomerante de calcários ricos em argila. ah, reduzidos a pó.
entrei atordoada, ávida por novidade; podia ser um rato siamês de duas cabeças, ou um louco travestido de messias.
não pude acreditar no que vi.
era um moço vendendo artesanato! como ele podia?
vendia tudo de madeira, trabalhado por ele mesmo, dizia.
eu fiquei estupefata. era tudo muito bonito mesmo, mas nada tinha isso a ver com o meu estado de estupefato.
como ele podia vender coisas feitas com a própria mão?
era moço pobre, feições sofridas.
saquei cinco reais da carteira e comprei uma caixinha de madeira pra mim.

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29.9.04

despir. botão por botão. mas não, não era essa a beleza que eu via em você. eu via beleza roubada, de coisa pra ser guardada. beleza de (como disse j. fante ) rolar como os gatinhos fazem. a vontade era fechar. botão por botão. mas você não entenderia, e levaria como tiro dado no meio do peito. assim nascia o sexo, diferente dos gatinhos.

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28.9.04

o amor é uma gardênia bem feia
que cheira a j'adore, da christian dior

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26.9.04

o nascer do sol é atemorizante.
a vontade é grande e não há nada a fazer a não ser derreter feito vela e esperar o tempo passar e a cera acabar o dia escurecer e o vento berrar mas e se o céu não se apagar? então não seremos velas e não serviremos para mais nada e a vontade cessará? ninguém esperaria mais um pássaro cantar. nenhum galo que fosse. então você falaria pras formigas que elas não têm mais o que comer e pras girafas que elas não têm mais o que ver. coragem, tenha um pouco de coragem.

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25.9.04

béguin.
para quem conhece a vaidade das flores que são lindas e hostis e esperam o momento do desabrochar mais belo só pra dar inveja na gente então saem dos botões pequenos e coloridos um monde de asas molengas que depois murcham vexadas porque elas são muito vaidosas mesmo e morrem bem feias mas só conheceu a beleza das gardênias quem não as viu assim.

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23.9.04

era melhor que naquele dia eu não tivesse olhado pra trás porque aí um pedaço de mim não teria ficado no chão e o meu perfume teria desgrudado do seu cheio sempre misturado no meu e eu teria me recuperado e sido inteira. depois veio você que ainda tava com o meu pedaço jogado no chão e o meu cheiro que eu sentia só de abraçar. me ofereceu tudo o que era meu como se fosse seu e como se fosse fatia de bolo para eu escolher qual ia pegar primeiro. então eu peguei o meu cheiro porque cheiro é o que faz a gente conquistar os outros. os meus pedaços eu deixei pra você chorar mais tarde quando finalmente lembrar de mim.

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22.9.04

edu (www.coditianidades.blogger.com.br),
o céu cinzendo depende do que vem de dentro, eu sei. às vezes eu olho pras coisas que faço e implico, bato o pé. não gosto, tento mudar, pioro. aí apago, que é pra nunca mais eu ver que era melhor não ter mudado.

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21.9.04

faz tempo que estou cismada com essa história de
coisa tão brilhante virar buraco negro, as estrelas.

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20.9.04

ela era suicida; ele, gari. limpava as pedras do arpoador. ela, nostálgica, sentava na beira com as pernas no ar.
o gari nem se assustava, tampouco a olhava. é bem verdade que de rabo-de-olho a achara linda, mas linda por linda era pouco, pensava.
era menina de cabelos e olhos muito pretos, desses que um namorado clichê chamaria de buracos negros mesmo sem saber que são formados por tímidas estrelas contraídas.
era moço humilde, sem ambições ou oportunidades. oprimido, oprimia-se na condição gari, e gari ficava.
a moça era ociosa, dum tipo bem burguês. e gostava também de ler. só não gostava de chuva, mas não saía com sol. só de sombrinha. quando chovia, ficava em casa. e não usava a sombrinha. e não sentava nas pedras do arpoador.
chovia, mas sentiu-se preparada. a coragem chegara.
caminhou devagar.
era noite, e pela primeira vez contemplava a vida.
olhou o céu e sorriu para as estrelas, lembrando-se de uma poesia* que carregava sempre no bolso

[...]
brilham para o mundo.
no entanto estão sozinhas
na lúgubre fantasia das pontas.
[...]
nunca as encontraremos
pois elas olham igualmente para nós
e nos desejam
porque estão sós.


era tão bonito, pensava, e tudo ficara tão belo de repente.
atirou-se com leveza no mar, batento o encéfalo numa pedra bem moldada e pontuda. podia agora encontrar uma daquelas beldades - verdadeiras deusas do céu - ao flutuar no éter. e fazer-lhes companhia.
o gari carregava as mesmas palavras que a moça gostava, só que nos olhos. olhava, pois, e chorava - pedaço vazio no céu.
a vida era tão dura.

*a poesia em itálico é de hilda hilst

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

17.9.04

era uma velha irritante e um tanto francesa no modo de falar. me irritava profundamente, e profundamente eu continuava com a terapia, os remédios, essas coisas que a velha ainda me pagaria por. eu estava inquieta, pois ouvia a televisão dela berrante até altas horas e, como se não bastasse, eu já detestava deus.
precisava me mudar, ou tirá-la do aposento grudado no meu, pois as paredes me pareciam de madeira, e eu ouvia sem esforços todas as conversas telefônicas e as mais várias orações.
estava farta, farta, e mais farta ainda eu ficava com o fato de haver aparelhos de surdez para vender.
logo, concluí no meu raciocínio o óbvio: ela me ouvia também; e queria matar-me, pensei, porque se eu a ouvia rezar, ela me ouvia planejar por telefone terríveis maneiras de deportá-la daqui.
me tornei paranóica, aflorado meu lado excessivamente neurótico e pensante. lado perigoso e nada vil. lado prático.
eu virara assassina, já completamente lúcida na minha loucura.
uma tarde, e fazia sol, a convidei para uns biscoitinhos amanteigados com chá.
ela, sorridente de felicidade (aparente), aceitou.
caíra na armadilha; e fora tão fácil, não me pareceu indefesa, o que de imediato aumentou minha desconfiança. estaria ela preparada?
e foi.
fazia calor, os ventiladores rodavam. os cachorros - eu possuía um casal - derretiam pelas línguas.
a senhora abriu rapidamente um leque para se abanar, transpirando, com as maçãs do rosto muito rosadas.
ela havia levado um pacote de amanteigados feitos por ela, disse que seria uma troca entre amigas.
eu suspeitei.
e sorriu, doçura suspeita, pensei, não havia mais tempo. foi então que o fiz. adentrei a cozinha e segurei com as mãos muito úmidas um enorme facão de carne.
matei o meu primeiro morto.
quando iniciei os movimentos de extermínio, hesitava mentalmente, tendo pena da perigosa velhinha. mas logo meu instinto assassino tomou as rédeas do crime, e eu não sentia mais, eu fazia.
morto, um corpo morto jazia em minha sala de estar.
enfiei o cadáver no armário e invadi a casa da pequena senhora. eu suava.
remexia gavetas, quando achei um testamento.
estava tudo em meu nome. espantei-me: por quê?
e havia uma escrita também, esta curta e numa letra muito feia. era pra mim, desejo a você felicidades e vida longa.
a consciência pesava, mas não havia nada mais a fazer.
usei o dinheiro para pagar análise.
hoje estou curada, graças a deus.

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

16.9.04

nostalgia é sentimento bonito.
é alemão.
eu desisti dos meus sonhos, não fui sensível o suficiente. precisei sempre de mais tempo para enxergar.
fica sendo coisa que ameaçou, mas não passou de vento.
eu não imaginei o futuro assim porque eu não era assim.
a magia a gente vê, ela não precisa acontecer...
e a manhã é sempre nostálgica, quem não consegue entender?
não precisa ser complicado, nem grandioso
para ser mágico.
é coisa que só as crianças entendem. e é preciso ser grande para entender tanta simplicidade nessa vida que te falo.

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

15.9.04

mimada de cabelos virgens.
entrou no salão, queria mudar. sair linda, porque ninguém entra num salão cogitando enfear.
pediu espelho, café, revistas e fogo. acendeu o cigarro, puxou, soltou, disse que esse vício é uma merda, coçou o nariz, ajeitou a argola da orelha e suspirou.
é que o meu cabelo é meio cheio e você tem que repicar embaixo pra cair com leveza o de cima, sim, eu sei que isso enche, mas dá um ar mais saudável ao rosto, é eu não gosto muito de sol.
a tesoura desesperava.
sentia comprazia em se destruir, sorriu.
pagou, obrigada e fica com o troco.
foi embora.
o trabalho perigoso ela faria em casa.
eles eram virgens, precisava ser feito por ela.
dormiram roxos, os cabelos. a tinta do lençol alastrava, manchando também o colchão.
estava tudo consumado, e ela dormiu mulher.

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

"E amou, com um berro bárbaro de gozo,
O monocromatismo monstruoso
Daquela universal vermelhidão!"
(Augusto dos Anjos)

não passavas de um bicho.
nunca suportei ver goelas mexendo.
e tudo eram nervos.
estripar-te, começando pelo pescoço.
arrancar essa merda que mexe na goela.
puxar fora.
arrepender-me -
arranquei-te a goela?
e como ouvirei, se não tens mais como dizer
] um dizer?
e chorar. chorar com a goela na mão.
pedaço teu, que eu tanto odiava
nojento no sangue.
a mão e a lágrima
misturadas no choro - arrependimento vão.
foram-se os dizeres mais lindos
e a goela também.
a raiva já era lágrima.
e lacrimejava. vermelho.

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

12.9.04

vênus com plutão e mercúrio
em escorpião.
ascendente sagitário.
lua em peixes.

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

10.9.04

"Histórias como esta constumam acabar bem e, mesmo que não se viva feliz para sempre - afinal, não se pode tudo -, deve haver pelo menos algum lugar quente e seco para abrigar o final da noite."
(Caio Fernando Abreu)

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

8.9.04

"und in der Bilderni ist nioht die Zeichnung geblieben
die deiner Brave dunkles zug
rasch and die Wandung der eigenen Wendung geschrieben?"

"E retratos: não têm o desenho fugido
que o traço escuro dos teus supercílios riscou
nas paredes do próprio rodopio?"
(Rilke)

tristeza tristeza tristeza
minhas unhas estão vermelhas
tristeza tristeza tristeza
eu apaguei a dor do mundo
mas não me culpo - fui inteira

era dia de sol e você foi embora. me deixou com a mão no ar, prendendo vento. estava inacabado, eu sabia. mas naquele momento senti que você não voltaria a me atormentar. então, comprei trufas na padaria, me sairia mais barato. além disso, trufas são deliciosas e você é azeda por demais.
quando chegava na minha casa, era uma folga só: ia logo tirando os sapatos dos pés de pequenas unhas pintadas.
seus sapatos vermelhos, combinando com as unhas. vulgares nos saltos finos e sempre muito altos. às vezes, sentava na minha cama - já sem os sapatos - e me pedia para fazer tranças. eu trançava seus cachos com o maior cuidado do mundo, lembrando que você não penteava os cabelos secos para não quebrá-los. eram meio desgrenhados, mas combinavam com você e suas unhas meio roídas, pequenas e descascadas.
um dia, você chorou e borrou toda a maquilagem. ficou linda.
quando chegava encharcada da chuva, largava os sapatos secando no parapeito da janela.
é para o papai noel, dizia.
mas não era natal.

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

7.9.04

simulo um casamento de viúva: um arco-íris se forma
bem longe do céu.


eu conservava um vazio tedioso sem saber pra quê.
estabeleci minha vida mundana assim - simples e satisfeita.
o chão com pequenas rachaduras, mas eu não sabia o perigo que seria se um dia elas abrissem.
e abriram.
eu caí bem no centro de tudo aquilo que repudiava.
e o rio de janeiro não continua lindo.
o rio de janeiro está horroroso, mas tem centros budistas.
eu nunca acreditei em nada!
mas o que eu não posso é deixar este chão aberto, cheio de novas fendas.
o mundo é muito maior...
e é perigoso quando algumas músicas fazem sentido.
é perigoso também segurar uma esferográfica sem palavras.
como eu sou moderna: e-s-f-e-r-o-g-r-á-f-i-c-a.
mas o mais moderno na minha vida ainda é o amor,
sentimento tão antigo.

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

5.9.04

"Te escrevo, enfim, me ocorre agora, porque nem você nem eu somos descartáveis.
E amanhã tem sol."
(Caio Fernando Abreu)

é verdade que eu não gostava das suas janelas de alumínio, quando o sol batia e nós dois fritávamos feito areia de praia.
mas o seu olhar vampiro e a sua pele uniforme me impressionavam, e eu andava cuidadosamente no seu tapete de pêlos.
parecíamos um casal morto.
mas nem eu nem você éramos perfeitos,
e logo a minha meia encardida incomodou você.
no começo
você tacava tudo na máquina e ficávamos horas conversando perto dela.
eu via rodar todas aqueles roupas, feito gatos na máquina de lavar.
e aconteceu.
a máquina quebrou.
você - com as mãos - me ajudava com as meias.
mas a mão enrugou.
e eu não usava mais meias.
mas o chulé incomodou você.
e compramos um talco.
você me amou mesmo assim.

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

1.9.04

"Saber desistir. Abandonar ou não abandonar - esta é muitas vezes a questão para um jogador. A arte de abandonar não é ensinada a ninguém. E está longe de ser rara a situação angustiosa em que devo decidir se há algum sentido em prosseguir jogando. Serei capaz de abandonar nobremente? ou sou daqueles que prosseguem teimosamente esperando que aconteça alguma coisa?"
(Clarice Lispector)

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

30.8.04

a dança

quando eu me apaixonei, foi de longe, e foi pela saia dela. rodava com uma leveza impressionante, a saia. os pés estavam descalços, imundos na terra. as mãos, apoiadas em outras mãos, desapareciam. eu quis ser aquelas mãos - pura vaidade, mas não sabia dar um passo, e jamais me renderia ao fracasso na frente dela - moça dançarina. quando cheguei em casa, abri as listas amarelas e procurei por aulas de dança. eu estava disposto a fazê-las por ela. e fiz. em um mês já estava dançando. me custaram caro, as aulas. não só dinheiro, mas tempo, e eu pensava em música os dias inteiros. era uma desgraça, mas aprendi. então, algo de mágico me aconteceu: ela, eu não queria mais. eu estava dançando tão bem, que ela: eu não queria mais. e não queria nem ela, nem ninguém. descobri que fiz isso por mim, porque à noite, em casa, eu colocava uma música bem alto e dançava sozinho. até o vizinho reclamar. um dia eu vou chamá-lo para dançar comigo, e dançaremos uma noite inteira. no fundo, talvez eu tenha feito isso por ele, e não por ela, nem por mim.

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

28.8.04

parte I
o encontro

primeiro foi o chaveiro, pra dentro da bolsa.
depois foram bolsa, sapato e celular.
estavam todos saindo pra jantar. tinha cinzeiro - então podia fumar!
ninguém olhou pro relógio,
porque ninguém era o ser esperado, nem o que faria esperar.
comeram.

parte II
a orgia

depois - no quarto - se olhavam. o sapato, pela fresta do armário, contemplava a bolsa, que o traía em segredo com a chave e com o chaveiro.
o celular, da cômoda, observava tudo.

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

27.8.04

patrícia sentou na janela; ana, no corredor. o céu movia-se denso e cada vez mais lento. os relógios marcavam meio-dia, e a paz dos passageiros era interrompida por ambulantes ganhando a vida - é caneta, lapiseira e borracha, um real, é caneta, lapiseira e borracha, um real.
patrícia, presa em problemas - a chave de casa esquecida no trabalho, o documento perdido.
ana lia, sempre calada. nunca tivera outra opção.
um moço gordo entrou no exato momento de uma freagem, balançando suas banhas pra trás. as meninas se juntaram num instante de riso. o gordo ajeitou a maleta nos braços, sujou a mão com o suor da testa e suspirou, aliviado. as meninas, ainda contendo risinhos, voltaram a pensar em suas particularidades cotidianas.
pontos depois, o gordo pretendeu saltar. só não parecia saber onde. achou melhor perguntar a alguém. patrícia olhava para a janela, parecia já estar na calçada. ana, ainda no livro. e sobrava.
o gordo foi bem direto e rápido, mas ana se desesperou: tentou abrir os lábios, depois usou as mãos. então fechou os olhos, respirou, e repetiu pausadamente todos os gestos.
o gordo conteve a irritação, mas não pôde fingir que havia entendido aquele bando de mãos.
patrícia deteve os olhos na menina. sentiu raiva do gordo e, atormentada com a fragilidade da nova amiga, respondeu que não, que é daqui a dois pontos, moço.
e o gordo sorriu, feliz e satisfeito.

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

26.8.04

"Estendo as mãos para o além, mas ao entendê-las já vejo
Que não é aquilo que quero aquilo que desejo..."
(Fernando Pessoa)

um sorriso
nem sempre sorri.
não são como bundas,
os sorrisos.
podem ser serenos
ou desesperados.
podem mostrar os dentes
ou acabar nos lábios.
o fim de um amor é assim:
sorriso que morre
nuns lábios de cetim.
batom morto por guardanapo
de bar.

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

24.8.04

"Dá um certo trabalho tirar síntese numa palavra só, esta: gosto."
(Caio Fernando Abreu)

falar: irrevogável soco na boca do estômago.
as palavras são um desespero: você jamais poderá adivinhar como o outro irá interpretar.

na madrugada
enquanto divagava em mim
eu, sombra
era pensamento, não pele.
e depois
com um pêlo esquecido no colchão
eu te tirava da minha vida
arrastando a sujeira
com a mão.
no dia seguinte
já não era mais quinta
e eu trocava o lençol.

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

22.8.04

A Valsa

Tu, ontem,
Na dança
Que cansa,
Voavas
Co'as faces
Em rosas
Formosas
De vivo,
Lascivo
Carmim;
Na valsa
Tão falsa,
Corrias,
Fugias,
Ardente,
Contente,
Tranqüila,
Serena,
Sem pena
De mim!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
- Não negues,
Não mintas...
- Eu vi!...

Valsavas:
- Teus belos
Cabelos,
Já soltos,
Revoltos,
Saltavam,
Voavam,
Brincavam
No colo
Que é meu;
E os olhos
Escuros
Tão puros,
Os olhos
Perjuros
Volvias,
Tremias,
Sorrias,
P'ra outro
Não eu!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
- Não negues,
Não mintas...
- Eu vi!...

Meu Deus!
Eras bela
Donzela,
Valsando,
Sorrindo,
Fugindo,
Qual silfo
Risonho
Que em sonho
Nos vem!
Mas esse
Sorriso
Tão liso
Que tinhas
Nos lábios
De rosa,
Formosa,
Tu davas,
Mandavas
A quem ?!

Quem dera
Que sintas
As dores
De arnores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
- Não negues,
Não mintas,..
- Eu vi!...

Calado,
Sózinho,
Mesquinho,
Em zelos
Ardendo,
Eu vi-te
Correndo
Tão falsa
Na valsa
Veloz!
Eu triste
Vi tudo!

Mas mudo
Não tive
Nas galas
Das salas,
Nem falas,
Nem cantos,
Nem prantos,
Nem voz!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!

Quem dera
Que sintas!...
- Não negues
Não mintas...
- Eu vi!

Na valsa
Cansaste;
Ficaste
Prostrada,
Turbada!
Pensavas,
Cismavas,
E estavas
Tão pálida
Então;
Qual pálida
Rosa
Mimosa
No vale
Do vento
Cruento
Batida,
Caída
Sem vida.
No chão!
Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
- Não negues,
Não mintas...
Eu vi!

(Caimiro de Abreu)

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

20.8.04

"'Ser tolerante é tolerar tudo?', não, pelo menos se quisermos que a tolerância seja uma virtude. Mas, embora a resposta só possa ser negativa, a argumentação não deixa de colocar um monte de problemas, que são de definições e de limites."
(André Comte-Sponville)

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

19.8.04

"São tudo histórias, menino. A história que está sendo contada, cada um a transforma em outra, na história que quiser. Escolha, entre todas elas, aquela que seu coração mais gostar, e persiga-a até o fim do mundo. Mesmo que ninguém compreenda, como se fosse um combate. Um bom combate, o melhor de todos, o único que vale a pena. O resto é engano, meu filho, é perdição."
(Caio Fernando Abreu, em Dulce Veiga)

marcinha era moça direita - só usava saia depois dos joelhos e cabelos presos, com muitas presilhas na frente. óculos de intelectual, com lentes para muitos graus.
não namorava. nem poderia, porque namorar não é coisa que se faça sozinho.
marcinha lia e escrevia. cantar alto era o seu maior pecado, ela dizia
sou donzela assustada
num cotidiano sem fim.
da escova de dentes
ao cheiro quente:
é tudo todo dia igual
pra mim.
seria uma história bem clichê se marcinha se rebelasse, soltasse os cabelos e saísse dando por aí. mas eu vou deixar assim mesmo: marcinha pura, intelectual e torta.

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

18.8.04

espera. tumulto de angústia suscitado pela espera do ser amado, no decorrer de mínimos atrasos.
a espera é um encantamento: recebi ordem de não me mexer.


na calçada da rua. no chão limpo de tão suja que eu estava camuflada na sujeira dele. eu esperava. pálida, tímida, calada. quis pôr asas em um monte de formiguinhas e achatar uns elefantes que passavam ali, mas só consegui dobrar algumas nuvens para apoiar a cabeça. eu havia almoçado e jantado o alecrim que tinha atrás da cerca. estava farta de qualquer mato, queria jasmim.
de repente, a boca que eu esperava chegou. estava suja de amora, pintada, vermelha. trazia dois olhos arregalados embaixo, que me despertavam uma incrível sensação de cansaço.
a gente dormiu na calçada mesmo, com os pés pra fora do meio-fio. um raio riscou o céu negro daquela noite.
amanhã eu procuraria jasmins.

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

17.8.04

"Algumas vezes, aos domingos, eu saio de manhãzinha para caçar nos arredores da cidade. Levo as fuzis. Mas nunca os cartuchos. Eu teria muito medo de matar um bicho. Gosto de observá-los, desentocá-los, vê-los fugir. Não quero correr o risco de feri-los." Luis Buñuel

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

14.8.04

"Enquanto o dourado se desfaz tão rápido que, se você piscar, num segundo ele já não está mais ali, e enquanto você se pergunta mas como? ou para onde foi? porque o roxo quase negro tomou toda a superfície da nuvem e, ela mesma, além da nova cor, já ganhou também outra forma súbita e inteiramente diversa. Assim ele se tornaria. Por enquanto, não, por enquanto eu tinha apenas uma sensação de dourado.
[...]
Ele sorriu para mim e perguntou:
- Você vai para a Liberdade?
- Não, eu vou para o Paraíso.
Ele sentou-se ao meu lado. E disse.
- Então eu vou com você."
(Caio Fernando Abreu, em Dulce Veiga)

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

13.8.04

a menina olhou o calendário e sorriu, toda maliciosa. estava tudo pronto para o dia de hoje: sexta-feira treze, ela grunhia num sorriso maléfico e dizia
ô manhê, comprou os pirulitos?
a casa estava cheia. tinha bala pra dar e vender dentro duns saquinhos de brinde. tinha fantasias também, todas assustadoras.
ô manhê, cadê os pirulitos?
não sei.
mas todo mundo só bate nas portas de quem tem pirulitos!
e como eles vão saber disso, filha?
eu fico com fama lá fora!

a noite começou. a mãe entrou no quarto e fechou a porta, angustiada com o barulho da campainha. mas tinha comprado tampões, e pôde ter uma noite de sono sossegada. dormiu.
as crianças do bairro estavam inquietas, corriam de casa em casa berrando
doce ou travessura?

doce ou travessura?, perguntou-lhe uma máscara com olhos sangrentos e saltitantes.
peraí que eu vou pegar o doce, ordenou a menina, com a calma de quem abre bem os olhos pra falar.
peraí, menina. está vendo aquela carruagem? - havia uma abóbora imensa lá fora, que parecia ser de verdade - o que você me diz de passear nela?
tá, mas peraí que eu vou pegar o doce!, gritou a menina, já impaciente e um tanto nervosa. afinal, seria seu primeiro passeio numa abóbora. correu para dentro da casa, puxou um saquinho preso no corrimão da escada e voltou, toda sorridente. entrou na abóbora que, para a dúvida dos leitores, era de verdade, e foi se desfazendo aos poucos em um monte de estrelhinhas, até sumir por completo, dizem as crianças daquele bairro. mas ninguém acredita em contos cinderelescos hoje em dia.

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

12.8.04

eu queria apresentar uma pessoa fantástica a vocês. ela estava com medos. medo de ninguém ler, de ninguém gostar. falem pra ela, é normal. ela é muito minha amiga, e eu adoro lê-la. espero que gostem também!
ah, antes que eu me esqueça:
nina borges

"nunca se sabia ao certo quando as coisas paravam de parecer divertidas e começavam a tornar-se patéticas, folclóricas ou vagamente ameaçadoras."
(Caio Fernando Abreu)

prepare o seu coração
pras coisas que eu vou falar...

eu devia tá triste, mas consigo sorrir
agora
preciso transformar lembranças
em cartões postais.
nem sei como começar, foi tanto tempo...
é como dar um livro velho, uma coleção.
ou jogar fora uma calcinha sem elástico -
[ já faz parte de você.

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

10.8.04

estava na farmácia comprando xampu quando tudo começou. ieda buscava sempre variar a marca, experimentar novidades. na dúvida, era atraída pela embalagem. porém, havia muitas moças segurando um xampu de mesma marca - semprebela - e ieda sentiu-se persuadida, necessitando levar o mesmo xampu que as outras carregavam felizes em suas sacolas.
quando saiu do banho, ieda estava loira, um cabelo que não combinava com uma mulher de 91 anos. andava na rua ouvindo comentários do tipo
olhe que fashion aquela senhora: loira!
ou
que tal pintarmos o cabelo daquela cor?
foi só dias depois que percebeu a ironia dos comentários, quando uma jovem o fez rindo de sua cara e apontando para os aloirados cabelos de ieda. o mundo desmoronou para a pobre nova xuxa, que deixou de ser fã em um ímpeto, passando a odiar de monroe a carla perez - todos os tons da cor.
foi nessa mesma semana que ieda descobriu que bush não era bonzinho, quando não saiu do espelho durante o bombardeiro que passava na tevê.
ieda estava fraca, destruída, sentindo-se uma criancinha perdida numa sala de pedagogos.
ieda precisava de suporte, mas o marido havia morrido há anos, e o cão praquilo não servia porque era cego, ela pensava, e por isso não ria.
a solução foi comprar outro xampu.
novamente, lá estava ieda na farmácia, persuadindo-se com o próprio inconsciente, que a fez comprar dessa vez uma outra marca - cheirobom - que pelo menos a metade das mulheres bonitas da farmácia levava nas mãos.
ieda saiu do banho. estava ruiva. deu um grito de horror.

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9.8.04

ela me beijou. na boca. foi assim que, de repente, eu senti o cheiro do xampu de framboesa. parecia minha pasta de dente, mas era gostoso, me trouxe paz.
a gente tava embaixo duma marquise. tinha um bando de gente em volta. fazíamos um casal estranho, porque eu era muito magro e ela tinha uns braços e pernas enormes, que me envolviam todo, e não sobrava nem cabelo meu.
quando a chuva parou, ela ainda tava me beijando, e não tinha mais ninguém em volta. eu pensei que queria que durasse pra sempre, mas ela foi me levando embora e entrou em casa. morava num sobradinho perto dali, todo descascando.
eu me senti usado no dia seguinte. bati na porta dela, e uma gorda que eu nunca tinha visto abriu uma fresta.
oi, a dora está?
mudou - cuspindo migalhas.
não deixou endereço?
não. nem telefone.
me senti injustiçado.
eu só fui saber que ela mudou pra tratar da doença meses depois. dora estava ficando cega.
quando completei 30 anos, ela me achou. já não enxergava mais. não tinha remédio pra ela naquela época.
e me beijou. na boca. de repente, eu senti de novo o cheio do xampu dela. era framboesa. tinha algumas na minha geladeira.

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

8.8.04

beatriz da silva carvalho júnior era um bebê que não dormia. a mãe cantava, dançava, lia, e nada. bibi não dormia. continuava toda arregalada. aí, cansada, a mãe grunhia
ai, caralho!
e bibi nada. a safada até ria.
todas as noites - a mãe cansada
ai, caralho!
e bibi nada.
até que um dia - a mãe cansada
ai, caralho!
ai, caiaio!
e bibi falou a sua primeira palavra.

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

5.8.04

elas passavam o dia naquela merda. contando carneirinhos, certamente nus. o primeiro que entrasse porta-dentro certamente também seria imaginado nu. que cena. não faziam nada. morriam na monotonia da profissão, pensando que antes tivessem escolhido a medicina, cirurgias, martelar narizes. fazer algo mais bruto, que exigisse destruição física. ali, consumiam insanidade mental em doses homeopáticas - em breve remédios tarja preta fariam parte das prateleiras do banheiro. moravam juntas, trabalhavam juntas, faziam tudo juntas. só não cagavam juntas. também não faziam sexo juntas, morreriam de nojo antes. mas acordavam juntas e dormiam juntas. não falavam juntas, tampouco falavam. inteligentíssimas, todas as duas. mas não abriam a boca pro que não fosse comestível. no máximo, uma ligava pra outra avisando que chegaria mais tarde. até que um dia uma não ligou. a outra estranhou, nunca acontecera antes. mas não se importou, sequer abriu a boca pra telefonar. esperou o dia seguinte, mas no dia seguinte ela também não estava lá. estranhou, mas dessa vez abriu a boca quando levou os dedos ao bocejar. à noite, o telefone tocou. a outra tinha morrido de susto no meio da rua
- foi o acontecimento do dia anterior, disse-lhe a outra voz da linha.
não caiu lágrima do rosto da uma, que ouvia calada. desligou o telefone e dormiu.

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

4.8.04

chego em casa ainda cedo, hora do almoço. a comida de sempre, nunca muda. acho que se um dia mudar eu vomito tudo. o barulho dos talheres me irrita. a goela alheia me irrita. levanto da mesa com o prato ainda por terminar, deito na cama e abro um livro. porra, a história não sai do lugar. como um doce. penso que seja doce, e lembro do caio. sorrio. pego o telefone, mas desisto.
a vida é tão vazia às vezes.

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3.8.04

"A felicidade é tão oposta à vida que, estando nela, a gente esquece que vive. Depois quando acaba, dure pouco, dure muito, fica apenas aquela impressão do segundo."
(Mario de Andrade, em Amar, Verbo Intransitivo)

eu, sozinha como só a vida há de propor
(já que tudo acaba em solidão),
parece até fácil escrever algumas linhas.
eu aqui, pateta parada,
bebendo ice tea
e odiando cada vez mais chá preto
(fui enganada pela imagem ilusória dum limão aberto desenhado na lata),
mas não jogo meu dinheiro fora,
portanto, bebo.
papel voou -
- retomo a folha branca
meia preenchida.
o vento que gela machucou a folha destes versos brancos.
eu tive vergonha das minhas palavras e fui correndo buscá-las.
enquanto espero nessa mesa de pingue-pongue,
sentada, daqui os outros parecem bonecos de vidas fáceis.
e não são?
garanto que são poucos que usam a cabeça pra doer no coração.

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~

30.7.04

"- esses caras são perigosos - completamente loucos e agressivos -, principalmente os que estão sempre escrevendo sobre AMOR, SEXO ou um MUNDO MELHOR. nossa, credo."
(Charles Bukowski)

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29.7.04

"Foda-se esse rei-ego absoluto. Foda-se a sua dor pessoal, esse seu ovo mesquinho e fechado."
(Caio Fernando Abreu)

aqui tem macarrão, arroz e feijão. tudo o que tem num vômito de bêbado.

ela apostaria num amor que não existia. que não jogasse na cara, mas enquanto isso mastigava até ficar fatigada, e como doía mastigar aquele coração de borracha. aquela cara dura. ela chorava. que superioridade sentia, que pena de si depois. que vontade de quebrar os espelhos e os vidros dos carros na rua. vontade de fazer uma loucura, qualquer loucura que fosse loucura suficiente pra fazer merda ou pra dar muito certo e ela esquecer daquilo que afligia. de repente, aprendeu a usar a dor. e escrevia. então jurou que nunca mais seria feliz, que felicidade ela não queria.

Postado por Pérola Simões D. Amaral .~





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Sofia

Doce Fel

No fim do arco íris

*.* aos mestres, agradecimentos pela existência do meu ser: mestre sempre sabe que o é... ! - devia ser o jargão da moda nas artes atuais!! :DD *.*

aos irremediavelmente memoráveis desejo, infelizmente, 1 passagem [[d IDA]] p Cantão num falso passaporte d oposição c direito a extravios d bagagens diretamente p o Haiti ;) ah :::: e bjomeliga! :****